Sábado, 27 de Junho de 2009

Vagabundos na GR de Montalegre – Caminho Jacobeu

 

Depois de muita discussão em torno da data para realizar esta actividade, lá ficou decidido que rumaríamos até è extremidade Norte de Portugal, no dia 10 de Junho de 2009, um dia depois da celebração do feriado municipal. Assim, bem cedo, lá nos reunimos, com esperança que o tempo, que se apresentava nessa manhã cinzento e húmido, melhorasse antes do início da caminhada. Cláudia, Nuno, Mário, Paulo e Hélder. Eis os vagabundos que se dispuseram a meter pés e bastões ao caminho. Depois de uma passagem rápida de carro pelo centro, onde se destaca o castelo imponente e a estátua do navegador que descobriu a costa da Califórnia, João Rodrigues Cabrilho, natural desta terra, lá fomos tomar o pingo da praxe. De seguida, rumamos a Meixedo, local previamente escolhido para deixarmos uma das viaturas e para pernoitarmos. De seguida, rumamos ao local que nos tinham indicado como sendo o inicio da trajecto. No entanto, não foi pacífico encontra-lo. Apesar dos esforços prévios de contactarmos as autoridades locais no sentido de garantirmos que não haveriam surpresas relativamente à marcação do percurso, a verdade é que chegados ao local que nos haviam indicado, não encontramos os pontos referenciados. Após alguns telefonemas, lá iniciamos um troço por estrada, que nos levaria, já em terras espanholas, ao ponto de arranque desta grande rota.

Infelizmente as melhorias esperadas das condições meteorológicas ainda não se faziam sentir e uma chuva miudinha teimava em cair, obrigando-nos a avançar de impermeáveis vestidos. Voltamos a entrar em terras portuguesas e por esta altura, caminhávamos num trajecto de vegetação bastante densa e não raras vezes, enterrados em água e lama quase até aos tornozelos. As dificuldades do percurso, eram no entanto atenuadas pela belíssima paisagem e pela agradável sensação de distanciamento da confusão das grandes cidades.

Mesmo os elementos marcadamente humanos por onde íamos passando, aldeias e construções diversas, nos davam uma sensação de paz e tranquilidade imensa. O granito, foi a pedra mais utilizada por estas paragens para a construção das casas e igrejas. Também ficou claro o tipo de vida e actividade económica que abundavam nesta região. Agricultura e criação animal foram durante muito tempo o sustento destas populações e ainda hoje, constituem a grande fonte de riqueza, da cada vez menos vasta população das pequenas povoações que fomos cruzando.

De forma alternada, a chuva e pequenos raios de sol foram-nos acompanhando, até à hora do almoço, em Padornelos. Durante todo este período, tivemos algumas hesitações sobre qual o trajecto correcto, pois em muitos casos a marcação era deficiente. Em determinada parte do traçado, o percurso desta grande rota é comum ao de uma pequena rota.

 

A meio da tarde, voltamos a passar pelo centro de Montalegre, desta vez a pé, que é como deve ser. Foi mais um período em que andamos perdidos, pois os sinais aqui são simplesmente inexistentes. Pelo que viemos a saber, “foram retirados por causa de uma actividade realizada na véspera”!?

Após deixarmos o centro de Montalegre, voltamos a embrenhar-nos no tipo de paisagem que vínhamos encontrando da parte da manhã e a jornada foi prosseguindo, dentro de um espírito de camaradagem e boa disposição que costumam caracterizar estas nossas actividades. E assim fomos passando por Codeçoso, Vale das Corças até chegarmos a Meixedo.

À semelhança das demais aldeias por onde fomos passando, trata-se de um “lugar que parou no tempo”, com as suas casas em pedra e o chamado largo da povoação, com chafariz, bebedouro, varandas e corte de boi com sino. Existe também um forno comunitário, todo feito em pedra. É Uma terra que cheira a século passado, com os animais e os tractores a cruzarem-se pelas ruas, cobertas dos excrementos das vacas e dos bois. Mas será que algum de nós se importa com isso? Claro que não. Encontrar o Portugal de outros tempos, é uma das coisas bonitas deste tipo de actividade.

Procuramos o Sr. Paulo Barros, elemento do executivo da Junta de Freguesia local, que muito gentilmente se tinha comprometido a arranjar-nos acomodação. O local escolhido foi a antiga casa paroquial, actualmente desabitada, uma vez que o pároco serve outras freguesias, tendo-se mudado por isso para Montalegre. A casa, que fica mesmo ao lado da Igreja, dispõe de um quarto, um wc e uma cozinha, que foi o local escolhido para estendermos os sacos-cama.

 

Após um banho retemperador, lá nos dirigimos de carro ao centro de Montalegre, para a refeição quente da noite. O local é bastante agradável e acolhedor, sendo que também a qualidade da carne é de referenciar. Depois, ala para os sacos-cama, para descansar os músculos. O espírito, esse, já se encontra bem melhor, depois de um dia em comunhão com a tranquilidade natural destas actividades.

 

No dia 11 pela manhã, dirigimo-nos de carro ao centro de Montalegre para tomar o pequeno-almoço e efectuarmos as compras necessárias para esse dia. Enquanto o Nuno e o Mário foram deixar uma viatura em Soutelinho da Raia, os restantes elementos foram tratando das sandes e da arrumação do espaço onde havíamos dormido. Nesse período, tivemos a oportunidade de aprofundar conhecimento com uma anciã local, que tínhamos conhecido no dia anterior, de seu nome Joaquina. A senhora, na casa dos oitenta, com aparência de setenta e energia de quarenta ou cinquenta, contou-nos que tinha estado nos EUA. Foi para lá sozinha aos cinquenta e poucos anos, directamente de Meixedo! Foi morar para casa de uma irmã e só voltou para cuidar da mãe, que se encontrava doente. Descobrimos isto, quando estávamos à conversa com ela e uma vizinha a informou que tinha deixado umas couves à sua porta ao que ela respondeu “thank you very nice”. Muito admirados dissemos “ah, fala inglês que é uma categoria”, ao que ela nos contou a história da sua passagem pelos estates. Contou-nos ela que por altura “das crismas, que é o Natal deles, - Christmas – disse ao boss que vinha a Portugal para passa com a mãe”. A isto, ele responde “Jack, estás cá só há dois anos, não podes dar-te ao luxo de ires sem autorização”. A isto, respondeu ela com a seguinte tirada “a minha mãe vale mais que todos os americanos juntos”. E o que é certo é que lá veio passar o Natal à terra. Quando voltou, já não tinha emprego, mas não se preocupou muito, porque segundo ela, “haviam por lá muitas, muitas fábricas”, e o que é certo, é que voltou a arranjar emprego. Conhecer uma pessoa assim, faz bem à alma e faz-nos perceber, o quão somos pequeninos!

Depois de tudo arrumado, as chaves entregues e os agradecimentos feitos, lá iniciamos mais uma jornada. Felizmente o tempo estava bem melhor e pudemos deixar de lado os impermeáveis e quase nos sentimos tentados a usar calções. Obviamente que neste tipo de actividades estamos sujeitos aos caprichos do tempo e venha o que vier, é bem-vindo. Mas obviamente desfruta-se mais das paisagens quando o céu está claro e o astro rei brilha lá em cima. O trajecto continuava a ser agradável e há a referenciar a travessia de uma ponte de pedras, sobre o leito do rio. Assim fomos seguindo pela Encosta do Piornal.

Chegados a Gralhas, decidimos parar para almoçar e fizemo-lo, mesmo em frente ao nº10. Se fosse em Downing Street, Inglaterra, ainda nos arriscávamos a dar de caras com o primeiro-ministro britânico, assim, só vimos os bois a passar.

 

Depois do almoço, fomos até um café, na busca de saciar o vício da cafeína e aqui encontramos uma bebida que era nova para todos nós e que tivemos de provar: kir!

De volta ao percurso, encontramos os primeiros sinais nas imediações da Igreja, mas daí em diante, nunca mais vimos qualquer sinalização e perdemo-nos por completo da rota.

Assim, a única hipótese que nos restou, foi seguir por estrada, na direcção que apontava o trajecto do panfleto. Foi assim que passamos ao largo de Sto. André e chegamos a Vilar de Perdizes. À entrada desta famosa localidade, encontramos uma escultura de uma perdiz, junto à qual nos fotografamos em diversas poses.

Daqui em diante, o trajecto manda-nos seguir até Soutelinho da Raia, local onde havíamos estacionado o carro nessa manhã. No entanto, como continuávamos sem rasto do traçado do percurso, lá tivemos que continuar por estrada, sempre em busca dos sinais, que teimavam em não aparecer.

À chegada ao carro, o Mário, que já se vinha ressentindo do joelho, decidiu ficar por ali mesmo, enquanto os restantes fizeram a estirada final, para chegar mesmo à fronteira com Espanha, local assinalado com um marco, mesmo à entrada da ponte.

Foi neste troço final, que voltamos a encontrar as marcações da rota! Depois disto, voltamos para a beira do Mário, para o lanche final.

Para finalizar, não podia ter faltado a cervejinha e os salgadinhos típicos destas actividades, num café local. Depois, ala para casa que se faz tarde, e até mesmo a natureza parecia indicar isso mesmo…

 

publicado por vagabundos às 13:29
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