Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

aventura na linha do tua - 2º dia

De Macedo de Cavaleiros até Santa Comba de Rossas

A alvorada deste novo dia decorreu em três cantares. Nada tem de semelhança com a história do guarda-chaves para além deste mesmo facto, ou seja, ter havido 3 cantares:

Primeiro Cantar – um galo com fuso horário desajustado, é como ter um elefante dentro de uma cristaleira. Causa uma confusão dos diabos. Este, devia estar a acordar pelo fuso horário da Rússia, ou coisa parecida, uma vez que começou a cantar por volta das 3 da manhã. Deve ter ficado confuso com a lua. Mais grave se tornou a situação, quando em resposta, começou ao desafio outro da mesma espécie, mas que seguramente necessitava consultar um otorrino, ou no mínimo tomar uma mebocaina (passe a publicidade gratuita). De tão rouco que estava, o seu cantar parecia mais digno de um peru, do que de uma galo

Segundo cantar – O dos almeidas. E não julguem que nos estamos a referir a alguma família de cantores locais, tipo os Von Trap. Estamos mesmo a fazer alusão aos funcionários municipais, encarregues das limpezas, que não deviam estar de grande humor. De tal forma, que fizeram certamente barulho acima do necessário. Pensando bem, talvez devêssemos ter aceite o número de telefone da GNR, he, he.

Terceiro cantar – definitivamente, a hora de levantar. Os aspersores automáticos de rega, iniciaram a sua função programada, tendo molhado parte do nosso equipamento, que teve de ser recolhido de emergência. Até pensamos que era o S. Pedro zangado connosco, o que dependendo da dimensão da zanga, poderia mesmo comprometer o restante da nossa caminhada. Mas não, felizmente era só a hora de regar o jardim e o dia amanheceu bonito.

Após o pequeno almoço, quando nos dirigíamos ao mercado para fazer as compras dos bens alimentícios para a jornada desse dia, fomos novamente abordados pelos mesmos agentes da GNR, para se despedirem, nos desejarem boa viagem e uma vez mais, nos pedirem desculpa pelo sucedido.

Pouco depois de termos iniciado a caminhada, partindo da estação de Macedo de Cavaleiros, o Mário sentiu que as dores nos joelhos, já reveladas no dia anterior, não o deixariam continuar o percurso, tendo optado por voltar para trás de táxi, com destino a Mirandela. Aí, recolhendo novamente a viatura, poderia encontrar-se mais tarde connosco, o que veio a acontecer em Salselas.

O primeiro ponto de referência, desse dia, foi a passagem pelo apeadeiro de Castelãos ao quilómetro 85,3. No entanto, não há muito a dizer sobre ele. Apenas mais um apeadeiro.

Seguiu-se Azibo à passagem pelo quilómetro 89,3, onde decidimos fazer uma pausa para a merenda do meio da manhã. Ao contrário da grande maioria das outras estações, esta encontra-se estimada e com aspecto de estar habitada.

Enquanto forrávamos o estômago, vimos passar um rebanho com o seu pastor e respectivos cães-guarda. Passados nem dois minutos, pensamos que já estavam de regresso, quando verificamos que se tratava de outro pastor, logo outro rebanho e... claro, outros cães-guarda. Um destes, fixou o olhar na nossa direcção de tal forma intimidante, que paramos o que estávamos a fazer. O bicho investiu, mas parou novamente, mantendo no entanto o olhar fixo. Aquando de nova investida, já nenhum de nós conseguia sequer respirar e só recuperamos, quando ele passou por nós em excesso de velocidade, em direcção a um outro cão que se encontrava mais adiante na mesma direcção que nós. Desta safamo-nos, mas não sem uma subida de adrenalina, que mais parecia o preço do barril de petróleo!

De volta ao nosso percurso, tendo em vista a estação seguinte, Salselas, encontramos dois sujeitos e um predicado, a abater árvores. Vendo-nos de mochila às costas, questionaram-nos sobre o nosso destino. Quando os informamos que nos dirigíamos a Bragança, a reacção deles deixou transparecer a sua surpresa, porque à boa maneira portuguesa, a sua resposta foi, e passamos a citar: “Foda-se”!

Perdoem-me os mais sensíveis, mas é nosso objectivo descrever esta aventura da forma mais fiel possível

Entretanto, o Paulo entretinha-se a recolher pregos com números, das travessas da extinta linha férrea.

Estas no entanto, terminaram, deixando em aberto um caminho doloroso, apenas constituído por cascalho. Assim se manteve o trajecto até ao apeadeiro, onde nos encontramos com o Mário – Salselas – Km 91,8 - já em posse da viatura, que nos aliviou a sede e as costas, pois daqui em diante, não mais carregamos a mochila, já que esta passou para a mala do carro. Foram menos 12 quilos, que cada um de nós deixou de transportar. No entanto, o Luís pareceu estranhar, pois passou a ter dores musculares! Propusemos-lhe de imediato, que chegados à estação seguinte, ele voltasse a colocar a mochila às costas, eh, eh. A dificuldade do percurso manteve-se, uma vez que continuávamos a caminhar em cima do cascalho.

Com maior ou menor esforço, conseguimos finalmente chegar ao quilómetro 94,6 onde se situa a estação de Valdrez. No entanto, as bolhas, que nesta altura já tinham água suficiente para encher uma piscina de crianças (repare-se no detalhe! Não era uma piscina qualquer, era uma de crianças), decidiram reclamar, e uma vez que não havia perspectiva de mudança, quer do trajecto, quer da paisagem, decidimos passar para a estrada, que serpenteava próxima da linha.

Em SendasKm 96,9 estava o Mário, à nossa espera para almoçar. Trinchávamos mais umas fatias da maravilhosa bola de azeite de Mirandela, quando o Mário demonstrou o seu primeiro sinal de repulsa por este belo manjar. Mas, fê-lo como um verdadeiro gentelman que deseja (perdoem-me a rudeza das palavras) “cagar-se”, pois afastou-se sem grande alarido, uma vez que até o cheiro da bola o enjoava. Grande surpresa, uma vez que logo após a compra da dita, se começou a deliciar, tecendo mesmo rasgados elogios à confecção. Escusado será dizer, que daqui em diante, este facto foi motivo de chacota e grande risota, até ao final do percurso.

Aproveitando a viatura de apoio, fomos tomar um cafezinho a uma aldeia próxima (Vinhas), pois em Sendas o café estava fechado. Ainda tivemos tempo e oportunidade para assistir a uma discussão político-religiosa sobre a construção de uma capela, em honra a S. Sebastião, nas terras da família Sá Morais. Sejamos honestos. Quando começamos a ouvir a conversa, ficamos extremamente surpreendidos que houvessem destes guerreiros japoneses por estas paragens!! É que o nome de família Sá Morais dito de uma forma rápida, soa de facto a samurais.

Seguiu-se o apeadeiro de Vila Franca, ao quilómetro 99,3, bastante distante da aldeia e sem nada de característico ou especial para registar.

De Chãos e Fermentãos, aos quilómetros 100,8 e 101,8 respectivamente, pode dizer-se mais ou menos o mesmo, com a diferença que se achavam mais próximo das respectivas aldeias. Encontravam-se, no entanto, em estado mais degradado. Principalmente a de Fermentãos.

Chegados a Salsas ao quilómetro 104,6, constatamos com agrado, que a estação se encontrava restaurada e com utilidade. No entanto, estragaram tudo ao construírem uma casa, mesmo no local de passagem da linha!! Incrível como permitem estas coisas, sobretudo se tivermos em linha de conta, que existe um projecto para transformar este trajecto numa eco-pista.

Nesta estação, enquanto metade dos “vagabundos” se entretinha num ponto de acesso à internet (?!?!), a outra metade, entretinha-se a atirar pedras a uma lata de sumo chamuscada, existente na linha. Este momento, transformou-se no jogo oficial para a restante jornada.

Iniciamos de seguida, o trajecto até Santa Comba de Rossas. Esta seria a última etapa programada para esse dia e foi com agrado, que constatamos (juntamente com os pés das bolhas) que este foi provavelmente o trajecto mais fácil de percorrer, graças à limpeza e bom estado do caminho. Assumimos, que deverá ser devido aos inúmeros castanheiros aí existentes. Será necessário com toda a certeza, acesso frequente de viaturas, e esta deverá ser a principal razão.

Chegados a Rossas que se encontra ao quilómetro 110,3, encontramo-nos com o Mário, encarregue de arranjar um local para pernoitarmos, sem ser “propriedade privada”, se é que me faço entender, e podermos tomar um bom banho. Enquanto esperávamos, aproveitamos o tempo morto para nova prova de arremesso da pedra à lata. Isto, porque infelizmente, não faltam latas abandonadas e estando nós a percorrer uma linha-férrea, mesmo desactivada, mantém quantidade considerável de pedras. O Mário, dirigiu-se ao Sr. Jerónimo, enquanto fazíamos o último troço de caminhada do dia. Ele, que é o tesoureiro da freguesia local, mesmo tendo puxado muito pela cabeça, não vislumbrou solução para os nossos anseios. Em conversa com um cidadão local, lembraram-se de um pavilhão em construção, no posto de abastecimento gasolineiro local. Chegados lá, constatamos que havia muita terra, o que danificaria todo o nosso equipamento. O autarca, repleto de boa vontade, ainda nos sugeriu que dormíssemos em cima de paletes!! Obrigado Sr. Jerónimo, mas não, não queremos acordar amanhã de manhã fatiados. Em seguida, surgiu a ideia de irmos dormir num quarto de aluguer, mas não era esse o espírito, pelo que tivemos que recusar mais uma vez. Lembraram-se então, de nos oferecer um alpendre na casa de uma pessoa que está a morar no país vizinho. Para não corrermos os riscos da noite anterior, falamos com os cunhados da proprietária, que de imediato nos deram autorização.

Resolvida que estava essa questão, fomos de carro até Bragança, onde nos dirigimos às piscinas municipais, a fim de tomarmos o merecido banho de final de jornada. Gentilmente, não só nos deixaram utilizar as instalações, como inclusive o fizeram de forma totalmente gratuita e desinteressada. O nosso obrigado por esta bonita atitude.

O passo seguinte, era obviamente tratar da barriguinha. O Jorjão, restaurante cuja qualidade nada tinha de comparável com o da noite anterior, foi a escolha. Abençoada escolha, uma vez que a diferença de nível foi bem lá para cima!!

Regressados a Rossas, havíamos combinado nova prova de arremesso, mas também havia que limpar a área e efectuar os preparativos para o descanso. Desta forma, acabamos por nos esquecer da competição agendada.

publicado por vagabundos às 10:43
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