Terça-feira, 17 de Junho de 2008

vagabundos no alvão

25 e 26 de Abril. Tal como prometido e agendado há muito tempo, o tal fim-de-semana prolongado que permitiria aos vagabundos levar a cabo a Grande Rota do Alvão, chegou e trouxe consigo um tempo magnífico. Depois de umas semanas de chuva intensa, o sol que se apresentava no céu e a promessa de subida de temperatura, pareciam ter sido encomendados ao S. Pedro, especialmente para este evento.

Desta feita, o grupo de Vagabundos apresentou-se com uma constituição muito interessante. O Mário, ainda lesionado, decidiu só se apresentar para o segundo dia de caminhada. No entanto, novos membros se têm vindo a juntar ao grupo, pelo que a constituição à partida para esta aventura, era a seguinte: Pedro, Nuno, Cláudia, Vítor, Marta, Luís, Paulo e Hélder. Nunca os Vagabundos tinham conseguido reunir um grupo tão grande, o que nos encheu de orgulho.

Foi este então, o conjunto que se apresentou às 8:30 da manhã, à porta da residencial Califa, onde gentilmente, a sua proprietária, nos permitiu guardar os sacos de viagem. Depois disto e do tradicional pingo, partimos de carro rumo a Monteiros, de onde havíamos programado iniciar a nossa aventura. A travessia do Alvão é uma GR circular, promovida pelo Município de Vila Pouca de Aguiar. É um percurso com um âmbito paisagístico-cultural, cuja extensão é de 54 Km. O grau de dificuldade aponta para um nível moderado, sendo a cota máxima atingida no marco geodésico do Minhéu, aos 1203 metros. Pelo perfil do percurso, podemos constatar que a diferença máxima de cotas, é dos 420 metros até aos 1203 já referidos. Aconselham que a sua duração seja de 2 dias e o início é junto ao Oratório do Rosário de Vila Pouca de Aguiar. No entanto, decidimos faze-lo de outra forma, sob pena de no final do primeiro dia de caminhada, termos que dormir com os “bichos” J. Assim, para que o primeiro dia terminasse num local onde pudéssemos pernoitar e tomar um bom banho, optamos por começar em Monteiros, percorrer cerca de 30 Km até Vila Pouca de Aguiar onde pernoitaríamos na residencial, iniciando no segundo dia os restantes 24 Km, rumo novamente a Monteiros, onde recolheríamos os carros e regressaríamos a casa. Tivemos que tomar esta opção, porque parece-nos um contra-senso, preparar-se uma GR com um potencial fantástico em termos de interesse, não se criando condições (um albergue, parque de campismo ou outras) para que as pessoas possam pernoitar a meio do percurso.

 

Mal estacionamos os carros em Monteiros, conhecemos uma senhor muitíssimo simpático, que sendo emigrante em França, está por estes dias a recuperar uma casa tradicional, toda em pedra, com muito bom gosto, diga-se de passagem. Ofereceu-nos de imediato a casa para futuras incursões do género. Sim, compreenderam bem, não era para alugar, era emprestar. Gratuitamente (perdoem o pleonasmo)! A nós, ou a outras associações que assim o entendessem. Até parece estranho nos dias que correm… O que é certo é que se tivéssemos conhecido este senhor mais cedo, poderíamos ter feito a rota tal e qual como prevista no prospecto.

Depois de descobrirmos um sinal que nos indicava o trilho certo, iniciamos a nossa jornada. Por esta altura, eram 9:45. Após começarmos a descer em direcção ao rio, surgiu a primeira dificuldade, que infelizmente se viria a manter ao longo de toda a rota: marcações claramente deficitárias. Ainda não tinham passado 15 minutos e já estávamos a retroceder pela 1ª vez, em busca do caminho correcto.

 

Sabíamos, pelo mapa, que tínhamos que passar para a margem esquerda do rio Avelames, quase na sua foz, uma vez que apenas um pouco mais à frente, ele une-se ao Tâmega. No entanto, não víamos qualquer sinal que nos indicasse onde o devíamos fazer. Finalmente, apareceu, na forma de uma ponte de pedra, que cruzamos sem qualquer dificuldade. No entanto, mal chegamos à outra margem, voltamos a deparar-nos com o problema já referido.

 

Não se vislumbrando qualquer marcação, nem sequer vestígios de um trilho, a opção era mesmo seguir a corta-mato, na direcção que apontava o mapa, com o intuito de encontrar a rota mais à frente. A única possibilidade era subir, subir, subir. Sempre sem destino certo, nem sempre por caminhos muito apropriados. O resultado foi um dispêndio de energias desnecessário, um consumo de tempo exagerado e as primeiras mazelas físicas, fruto das arranhadelas e esfoladelas provocadas pelas silvas, pedras, escorregadelas e afins. Passados cerca de 45 minutos a 1 hora, lá reencontramos a rota e as marcações, provando-nos que pelo menos tínhamos conseguido orientar-nos bem pela bússola, pois havíamos seguido a direcção certa. Continuamos então o percurso, que era agora a subir. Apesar de o declive não ser por esta altura muito acentuado, o calor ia apertando e, fruto da falta de exercício da maioria dos participantes, alguns elementos iam começando a sentir-se fatigados.

 

No entanto, olhando para o mapa, concluímos que ainda não havíamos sequer começado a fase mais complicada do percurso, em que teríamos que vencer um desnível de 600 metros em apenas 3 quilómetros. Alguns de nós, achavam que já estaríamos a percorrer esse troço, tal o cansaço já sentido. No entanto, olhando para o mapa, a realidade nua e crua era bem diferente e saltava à vista: nada disso, esta, ainda é a subida suave!!! Lá fomos continuando. Muitas das vezes a ter que adivinhar o percurso, outras encontrando sinalização a cada 100 passos. Mas a verdade, é que o esforço ia valendo a pena, pois a paisagem é de facto lindíssima. Não raras vezes, pudemos observar o rio a serpentear lá em baixo. Também encontramos com frequência riachos, pequenos cursos de água ou minas, de onde brotava esse líquido cristalino e precioso.

 

Também a vegetação, não sendo muito florida, era muito agradável, com a sua diversidade de formas e cores. Mas não era só a flora que nos extasiava. Também a fauna o fazia, pois para além das tradicionais vaquinhas e ovelhas que sempre se encontram nestas rotas, pudemos observar uma ave de rapina. Enfim, estava a ser bastante agradável. Por volta do meio-dia, a Cláudia deu mostras de não estar nos seus melhores dias. Daí em diante, as suas paragens passaram a ser cada vez mais frequentes e o percurso tornou-se penoso para ela. Não só pelo sacrifício que estava a revelar, mas também porque não estava a desfrutar de uma actividade de que tanto gosta.

 

Por volta das 13 horas, voltamos a grande impasse em termos de rumo. Fruto, mais uma vez, de uma marcação muito má, estivemos parados, ou antes, em avanços e recuos constantes, sem que no entanto se vislumbrasse qualquer evolução. Curiosidade ou não, foi novamente num ponto em que tínhamos que cruzar um curso de água. Quando finalmente apanhamos o fio à meada, lá fizemos a travessia, não que sem antes, o Hélder se enfiasse parcialmente dentro do ribeiro! Ao atravessar pelo tronco de madeira por onde já quase todos haviam passado, houve um desequilíbrio. Como havia outros mais pequenos ao lado, tentou colocar-lhes o pé para recuperar o equilíbrio, mas estes não estavam fixos, mas a boiar. Desta forma, o pé e a perna desapareceram naquela superfície excessivamente “mole” para o efeito. Numa altura em que as habituais bolhas começavam a dar sinais de incómodo, avançar agora, com botas, meias e pés completamente encharcados, só contribuiu para agravar a situação. Perto de meia hora mais tarde, por volta das 14:00, chegamos a Soutelo de Matos. Aí, foi possível tomar algumas decisões. Desde logo, decidiu-se chamar um táxi, pois a Cláudia estava no limite e o Pedro, também não se estava a sentir em grande forma. Ambos apresentavam sintomas de má disposição. Assim se pediu à D. Isilda, uma habitante local, para nos indicar o número de telefone de um taxista. Não foi uma tarefa simples, pois o Sr. Júlio, o profissional contactado, estava com problemas. Não chegamos a perceber se eram do foro auditivo, ou se era mesmo um problema da rede de telemóvel! Por fim lá se conseguiu fazer a chamada e o Sr. Júlio lá chegou, uns 20 minutos depois do telefonema. Com pena geral, lá tivemos que nos separar. A Cláudia, o Nuno e o Pedro voltaram à pensão, enquanto os restantes elementos, terminado o almoço e recuperadas as bolhas (dentro dos possíveis), lá seguiram caminho.

 

O relógio, marcava por esta altura 14:30. Nesta fase, iniciamos a tal subida que todos aguardávamos com algum receio. Apesar de bastante acentuada, fizemo-la sem grande esforço, sendo que o maior problema foi mesmo encontrar o caminho. Isto, porque mais uma vez, não se conseguiam encontrar as marcas devidas.  Lá seguimos, uma vez mais a corta-mato, orientados pelo mapa e pela bússola, até chegarmos a uma espécie de caminho circundante da montanha. Aí, caminhamos num caminho sem declive durante cerca de duas horas. Nem subia, nem descia, nem a paisagem mudava. Caminhávamos e parecia que estávamos sempre a voltar ao mesmo ponto.

 

Ao fim destas duas horas, pelas nossas contas deveríamos estar prestes a encontrar o marco geodésico no Minhéu. Foi nesta altura, que chegamos à triste conclusão, que um marco geodésico não se afigura igual para todos. Talvez por termos estudado em escolas diferentes… O Vítor e o Luís, chamaram-nos de longe, cheios de confiança a indicar que o caminho era o que eles tinham seguido. “Encontramos o marco” – gritavam eles. Quando no entanto chegamos junto deles, apontaram para um monte de pedras cheios de orgulho J É certo que os calhaus estavam bem amontoados e alinhados, mas daí a tratar-se de um marco geodésico, vai uma distância muito grande… Em boa verdade, a única semelhança entre aquele monte de pedras e o marco do Minhéu, estava na menina dos seus olhos. No entanto, sem grandes alternativas porque as marcações do caminho teimavam em não aparecer, lá continuamos a avançar, até encontrarmos um pastor com o seu rebanho. O Paulo questionou-o sobre a localização do marco, sendo também ele desconhecedor de tal coisa. A alternativa, estando nós fora da rota, foi pedir-lhe indicações de como chegar a Afonsim, que seria a próxima localidade a encontrar na rota. Assim fomos seguindo. Chegamos a esta povoação por volta das 17:30 e fazendo umas contas de cabeça, concluímos que faltando 15 quilómetros para concluir o trajecto deste dia e, tendo em conta o tempo utilizado até ao momento, adicionando ainda a dificuldade provocada pela falta demarcações, concluímos que seria necessário dispor de lanternas para concluir o percurso. Algo que estava totalmente fora de questão. Assim, optamos por fazer um telefonema, para que um táxi nos viesse recolher. Foi desta forma, que cerca de 1 hora mais tarde, chegamos a Vila Pouca de Aguiar. Depois do abençoado banho e tratamento das mazelas, fomos procurar repasto. A opção, recaiu no restaurante Pacífico, onde cada um fez a escolha que mais lhe agradou. Terminado o jantar, voltamos à pensão, para o merecido descanso.

 

 

O encontro para o pequeno-almoço do segundo dia, foi às 8:15 e por volta das 8:30, chegou o novo vagabundo, o Mário. Cheio de energia, até contrastava um bocado com os restantes elementos. Depois do habitual pingo e das compras necessárias, lá partimos, rumo a Cidadelha de Aguiar, a primeira povoação pela qual teríamos que passar nesse dia. Até esta localidade, as botas que o Paulo tinha deixado para trás, não fizeram qualquer falta. Esta decisão foi tomada, após experiência matinal, na qual constatou, que a usa-las novamente nesse dia, iria ter que se cingir à proposta do Vítor: ir ao café em frente à residencial e voltar para lá! Isto porque sendo esta a primeira caminhada com estas botas, decidiram cravar-lhe fundo na pele, em forma de bolha, a lembrança do pouco ou mesmo nenhum uso anterior. Este primeiro troço foi bastante urbano. No entanto, daqui em diante, o caminho que passamos a usar era rural, servindo de apoio à agriculturaO rio Avelames circulava ali próximo. Desta forma, tendo em conta esta conjugação de factores, era normal que o caminho se encontrasse enlameado ou, em certas partes, alagado por completo. Isto fez com que alguns pés começassem a ficar molhados. De tal forma, que a espaços, tínhamos que deixar o caminho para procurar alternativas mais secas, nos campos circundantes. Ao passarmos o muro de um desses campos, uma pedra soltou-se quando o Paulo efectuava já a descida, provocando uma queda algo aparatosa. Como resultado imediato, ficou com a roupa molhada e alguns arranhões superficiais. O problema residiu, nos efeitos a médio prazo, pois começou a sentir dores que dificultaram a progressão. Sobretudo porque o cariz do trajecto não se alterou, mantendo-se extremamente alagado, o que obrigava a saltos constantes. Foi assim num passo lento, que chegamos a Pedras Salgadas, passadas 2 horas depois de termos partido. Por essa altura, o conta-quilómetros marcava apenas 7 unidades percorridas. Aproveitamos para lanchar nesta bonita terra, remetendo qualquer decisão para quando chegássemos à localidade seguinte. Aqui tivemos a oportunidade de observar belas casas senhoriais, muitas delas votadas ao mais completo abandono. O rio Avelames continuou a fazer-nos companhia, pois viajávamos pela sua margem. Dois quilómetros adiante, que demoramos mais 1 hora a percorrer, chegamos a Sabroso de Aguiar. É verdade, demoramos 1 hora para percorrer apenas 2 quilómetros. A razão, não era apenas a lesão do Paulo, mas também o baixo ritmo a que o Hélder caminhava, fruto das dores provocadas pelas bolhas. Assim, para não agravar nenhuma das situações e para que nenhum ficasse sozinho, decidiu-se, uma vez mais com muita pena de todos, que o grupo se separaria. Daí em diante, o percurso decorreu dentro da normalidade, não tendo havido mais sobressaltos. A nota dominante nesta fase do percurso era a presença de pinheiro-bravos. Assim que estes se deixam de avistar, somos chegados ao lugar de Freixada, de onde partimos por um caminho em terra até chegarmos a Vilela de Cabugueira. Este tipo de trilho mantém-se depois paralelo à estrada municipal, até chegarmos a Adagoi. De salientar o facto de o percurso, se encontrar nesta fase com identificação muito melhor que a que encontramos no dia anterior. Voltamos então a um trilho florestal, com uma paisagem fabulosa e de onde podemos avistar o rio Tâmega. No final, os elementos que concluíram o percurso estavam bastante cansados, mas nem por isso se encontravam com menor disposição. Assim, pegando nas viaturas, voltaram a Sabroso de Aguiar para recolher os enfermos. Depois, o percurso foi mais manso: de carro até à pensão. Recolher os haveres e novamente de carro até casa de cada um. Ficou por certo um sentimento de vazio na grande maioria do grupo. Afinal, não é a isto que estamos habituados. Empreendimento que se comece é para terminar. No entanto, como o Nuno costuma dizer: “- A natureza não foge”. E é bem verdade. Fazemos estas actividades por gozo e se por algum motivo, em lugar de prazer esta actividade causar qualquer tipo de dor, mais vale parar e repetir mais tarde.

 

 

 

 

 

 

publicado por vagabundos às 10:04
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