Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Aventura na Linha do Sabor II

Acordamos às 7:15 com a animação habitual, mas fruto do cansaço instalado, o processo de preparação foi lento e só às 8:30 é que tomamos o pequeno almoço. Entretanto, às 8:00, já o Mário e o Luís estavam à nossa espera, com uma disposição e frescura de fazer raiva. Mas o sorrisinho parvo que traziam na cara foi-se esbatendo à medida que os quilómetros foram avançando. Eh, eh, pensavam que era só andar de carro, não?!

Depois da habitual troca de carros, com especial atenção às chaves do Nuno, iniciamos o trajecto às 10:15.

 

Os campos de cultivo tomaram literalmente conta do traçado da linha nos primeiros metros. De tal modo, que tivemos imensa dificuldade em encontrar o traçado. Mas a viagem lá foi seguindo. Sempre com boa disposição, num cenário muito semelhante ao do dia anterior.

 

 
 

Vilar do Rei - Km 68,8,6 / 36,6

Esta estação encontra-se rodeada de vegetação. Apenas o cais de carga está livre do mato, talvez porque ainda hoje seja usado por algum privado. Planeávamos efectuar a pausa para o lanche matinal aqui, mas como as condições não eram as melhores, passamos a estação e logo à frente, encontramos um pequeno largo com um jardim infantil, onde se tornou mais aprazível desfrutar da merenda.

  

   
 

Por esta altura a Cláudia dava sinais de algum cansaço. De tal modo, que antes da estação seguinte, ela resolveu parar. A decisão mais acertada revelou-se ser votar atrás, à povoação mais próxima, chamando depois um táxi que a levasse a ela e ao Nuno, de volta ao local onde tinham estacionado o carro. Ficou combinado, que se encontrariam com os restantes elementos em Bruçó, para o almoço.

 

Desta forma mantinham-se quatro vagabundos no trilho e foram estes, que tiveram a sorte de se cruzarem com o Sr. Abdias Lopes. Perguntamos-lhe se também haveria o nome Abnoites, mas ele desconhecia. Nascido na terra e residente no Mogadouro, este simpático senhor estava a colher fruta das suas árvores. Perguntou-nos se queríamos provar uns figos e umas uvas. Nós, claro, dissemos que sim e não nos arrependemos, porque a fruta era simplesmente deliciosa! Mantivemo-nos um pouco à conversa com ele e descobrimos que tinha sido funcionário público no ministério da educação. Explicou-nos que o seu curioso nome era original do Brasil, onde o seu padrinho morou muitos anos.

 

  
 

Foi através dele, que ficamos a saber de uma história muito curiosa, relacionada com esta linha. Conta a lenda, que aquando das obras de construção, uma carreta foi largada em Bruçó e devido à inclinação do terreno, veio até Vilar do Rei, tendo andado para a frente e para trás, fruto apenas dos declives entre as duas estações. Terá andado assim um dia inteiro! Quem conta um conto, acrescenta um ponto. Esta terá por certo uns poucos deles. Esta história já era contada pelas avós do Sr. Abdias, que também lhe disseram que morreu muita gente, na construção desta linha. Segundo elas, o caminho foi aberto a picareta e dinamite, tendo-se registado imensos acidentes.

 

A mãe do Sr. Abdias, actualmente com 94 anos, viu o primeiro comboio que por esta linha passou e nunca, nessa altura, pensou que iria ver o último.

 

Durante todo o tempo em que nos mantivemos na cavaqueira, fomos comendo figos e uvas, de tal maneira que praticamente esvaziamos um balde completo! Mas tudo consentido e até incentivado, pelo próprio Sr. Abdias, que sorria, orgulhoso da qualidade da sua fruta. E bem tinha razões para isso.

 

Mas isto de percorrer linhas desactivadas não pode ser só comer fruta e tagarelar com gente simpática. Lá tivemos que meter as botas ao caminho. Este, revelou-se nesta fase muito complicado, fruto da grande quantidade de pedras e da dificuldade em perceber o traçado. Quando finalmente avistamos a estação de Bruçó, foi um alívio. O Nuno e a Cláudia lá estavam à nossa espera para almoçar. O edifício está como a grande maioria dos restantes, mas não tem tanta vegetação a envolve-lo.

  

 
 

 

Bruçó - Km 58,8 / 46,6

Após o almoço, aproveitando a presença do carro do Nuno e da Cláudia, fomos até à população mais próxima para tomarmos um café. Depois disso o Nuno e a Cláudia deixaram-nos, não sem antes levarem o Mário até ao local onde estava uma das nossas viaturas. Isto porque mais uma vez, o seu joelho já dava sinais de cuidados e ele preferiu não arriscar.

 

Desta forma, restaram apenas três vagabundos para seguirem juntos nesta aventura. O Luís, ficou com os bastões do Mário por empréstimo e prometeu visitar todas as lojas de chineses do país, à procura de ferramentas iguais!

 

Este foi talvez o troço mais duro de realizar. O calor apertava e o trajecto era muito difícil. A dada altura, mesmo no traçado da linha, encontra-se uma pedreira. Possibilidade de a atravessar? Nenhuma. A única hipótese foi mesmo contorna-la. Ao faze-lo, encontramos um abrigo de pastores muito catita. Mesmo quando terminamos a “circum-navegação” da pedreira, paramos para tirar uma fotografia. A recta que se estende daqui para a frente é simplesmente impressionante. Na nossa humilde opinião, deverá ter cerca de 1 km de extensão. Mal terminamos de tirar a foto e nos pusemos a mexer, ouvimos uma tremenda explosão vinda da pedreira. Eram só calhaus pelo ar. Ainda bem que já tínhamos passado aquela zona. Caso contrário, os chapéus que usávamos não deveriam oferecer grande protecção!

 

 
    
 

 

Daqui em diante foi: caminhar, caminhar, caminhar, caminhar, sempre com o mesmo tipo de paisagem e dificuldade. Mato por todo o lado e uma terrível dificuldade em perceber o traçado. Felizmente, quando se começaram a vislumbrar traços de povoações próximas, encontramos um senhor que estava a vindimar. Ofereceu-nos um cacho de uvas e elas eram simplesmente deliciosas. Enquanto as comíamos mantivemo-nos à conversa e descobrimos que era natural da região, mas que reside no Estoril. Tem 3 filhos com bons empregos e diziam-lhe com frequência “oh pai, para que é que fazes isso?”. Ele respondeu simplesmente que se eles fazem o que querem e gostam, ele também tinha o direito! Para descrever o maravilhoso fruto que nos dera a provar, usou uma expressão muito curiosa, “parece carne”. E de facto, pudemos comprovar que a observação não estava desajustada. Ele contou-nos que aquelas uvas dão origem a um néctar chamado Montes Ermos. Com umas uvas desta qualidade, a pomada deveria ser de categoria. Há que fixar o nome.

 

Depois perguntou-nos o que andávamos a fazer. Quando lhe explicamos, disse-nos que a filha também gosta de caminhadas e que as costuma fazer na serra de Sintra. Lá nos despedimos, pois estava a fazer-se tarde e ainda tínhamos uns bons quilómetros a percorrer até chegarmos à estação seguinte.

 

 

Lagoaça - Km 49,4 / 56,0

O Mário estava à nossa espera neste local. A estação, totalmente remodelada, é actualmente utilizada como um bar. Infelizmente estava encerrada. Aproveitamos de qualquer das formas para lanchar neste local.

 

 

Por esta altura já estava a escurecer. Tivemos receio de nos meter ao caminho nestas circunstâncias. Assim decidimos ir de carro até ao apeadeiro seguinte. Foi aí que encontramos uma foto digna das melhores piadas nacionais. Em altura de eleições, tivemos o prazer de tirar a foto abaixo. Sem comentários

 

 

  

Fornos Sabor - Km 47,0 / 58,4

Do apeadeiro, só resta mesmo… isto!

 

   

 

De carro até ao próximo ponto, que a tarde está mesmo a terminar.

 

 

Freixo de Espada à Cinta - Km 42,3 / 63,1

A estação está como muitas outras. Mas deverá ter sido muito importante, apesar de ficar a 16 quilómetros da cidade! Não sabemos ao certo que localidades próximas poderia servir, mas o táxi devia ser muito utilizado.

 

 

 

 

Chegados ao centro da cidade com a noite quase posta, dirigimo-nos de imediato ao quartel dos Bombeiro Voluntários de Freixo de Espada a Cinta, que muito gentilmente nos receberam e deixaram utilizar as suas instalações. Nós não somos esquisitos relativamente aos sítios onde pernoitamos. Faz parte do espírito de vagabundo. Mas estas acomodações eram particularmente boas. Um local para dormirmos com beliches novinhos e umas instalações sanitárias fantásticas. Muito e muito obrigado senhor comandante dos bombeiros.

 

 

De banhinho tomado, lá fomos jantar. Muito sinceramente, nenhum de nós se recorda do nome do restaurante, nem sequer sabemos muito bem o que comemos. Apesar de estar bom! Mas pela primeira vez na nossa vida, antes de entrarmos para nos sentarmos, perguntamos à funcionária se tinham, pasmem, Montes Ermos para beber! Exactamente. Não perguntamos se tinham costoletas à la frige ou peixe aranha marinado em cama de frumel. Perguntamos se tinham Montes Ermos para beber. Fazemos uma pequena ideia da impressão e ideia que devemos ter causado.

 

O que é certo, é que a resposta foi positiva e lá nos sentamos. Durante esse jantar deitamos abaixo 2 garrafas deste delicioso néctar. E fizemos no mínimo uns 37 brindes :)

publicado por vagabundos às 12:30
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