Os Vagabundos Hélder e Paulo estão de volta.
Somos em boa verdade os únicos a fazer jus ao nome, ao sacrificar alguns dos nossos dias de férias para nos dedicarmos de corpo e alma ao ócio e à libertinagem :), tudo em prol desta actividade fantástica que é a caminhada, em comunhão com a natureza e com nós próprios.
Por caprichos da vida e por razões que nem o próprio Santiago poderá um dia explicar, contamos este ano com a participação de uma terceira vagabunda. No início desta empreitada, a Susana tratava-se de uma aspirante. No final, tenho a sensação que se trata já de uma ex-futura-vagabunda! Não que nos tenha deixado ficar mal. Até se aguentou bem à bronca. Fez bolhas, cansou-se, aguentou as piadas pesudo-machistas e lá chegou ao destino. Mas pelo caminho, lá foi tendo momentos de desânimo, e dizendo que sentia saudades de conversas de gajas e do conforto e mordomias que tem em casa!! Apesar de ter apelidado a experiência de muito positiva, tenho a nítida noção que não a voltaremos a ver por estas paragens ;)
Depois do caminho Português em 2010 e da Via da Prata em 2011, a vontade de palmilhar o mais badalado caminho com destino ao Jacob, era muita. Por um lado pela beleza que este caminho prometia, por outro, pelo facto de ser precisamente a mais mística de todos as vias. Foi por isso com grande entusiasmo que zarpamos para O Cebreiro no dia 30 de Março, quando o cuco ainda preguiçoso, tinha acabado de vir cantar pela 5ª vez nesse dia.
O ritual da preparação de um caminho, envolve muito mais que a simples decisão sobre levar um fato da Sacoor ou uma gabardine da Lion of Porsches. Conta muito mais o peso que se leva no lombo. Como não temos a resistência de um Sherpa, é imprescindível a selecção de roupa leve, fácil de secar, quente ou fresca consoante se pretenda, e sobretudo em quantidade que não ultrapasse o estritamente necessário. Também o calçado merece todos os anos cuidados específicos, consoante a época do ano. Visto que esta caminhada se revestia de fortes probabilidades de S. Pedro nos agraciar com a queda de uns pingos de chuva, pareceu-nos essencial a utilização de calçado com Gore-Tex (publicidade a baixo custo). Após longas semanas de experimentações, quase a queimar a partida, ainda subsistiam grandes dúvidas sobre as melhores opções. Vai-se já entender porquê :) - mas uma coisa pode ficar desde já registada: o Paulo teve tantas saudades das suas Nike...
Imagens de O Cebreiro - localidade muito catita
Depois de estacionarmos o “coche”, como lhe chamam por estas bandas, iniciamos o percurso por volta das 11h. Este primeiro dia brinda-nos com paisagens encantadoras. Perto do Alto de San Roque, já o calor apertava, e o esforço da caminhada convidava-nos a despojar o corpo de alguns adereços, sobrecarregando um pouco mais o costado. Zona extremamente ventosa. A ponto de a própria estátua se ver aflita para segurar o chapéu. Por tradição, o almoço do primeiro dia é levado de casa, mas não varia muito relativamente ao menu dos restantes dias: pão, fruta, queijo e por vezes uma lambarice. Neste caso, foi apimentado após o almoço. Procuramos sempre que a paragem seja feita onde possamos tomar café. Quer dizer, qualquer coisa parecida com café. Por estas paragens tem que ser “sólo” e “corto”, mas mesmo assim é ruim…mas a bela da estalajadeira ofereceu-nos uma branquinha para acompanhar, que bebemos ao belo som da salsa. Tipicamente jacobeano!!!
Quando estávamos para zarpar, estava a chegar uma peregrina pela qual tínhamos passado no caminho, e à qual não auguramos grande fim: trazia umas traineiras nos pés a servir de botas!! Mais tarde, desconfiamos mesmo se não seriam arrastões, tal era o peso e a desconformidade das mesmas. A pobre vinha a arrastar os pés. Pudera, quando chegou ao local onde almoçamos, tirou-as e tinha os pés num mísero estado!!! Coitada, até tivemos pena dela. Mas claro, como bons peregrinos que somos, solidários com a dor dela, fartamo-nos de rir e gozar, ao ponto de termos tirado uma foto às escondidas às ditas botas. É que não é todos os dias que se vislumbram obras-primas daquelas, e podemos não conseguir mantê-las na memória para a eternidade :)
Durante a tarde, o cenário foi muito semelhante. Os temas de conversa foram rodando, entre assuntos mais intelectuais, até cretinices completas, que nos permitiram aliviar as mentes…e não só… Chegamos ao albergue de Triacastela ao final da tarde. Muito simpático. Ficamos os 3 numa camarata de 4 camas. Parecia um hotel de luxo, com quartos privativos. Tem umas portas à far-west muito jeitosas para partir narizes!! E um sistema de água nos banhos, que nunca tínhamos visto…de tão estupidamente mau que era. Pedimos a um japona com ar abichanado para nos tirar a foto da praxe, demos uma volta pelo vilarejo, visitamos o exterior da igreja, já que estava fechada, e comemos num snack-tasco simpático. Depois, toca a dormir, que se faz tarde.
Com a ideia que estávamos de facto num hotel de luxo, no dia seguinte levantamo-nos tarde e a más horas. De tal forma, que às 9h30 ainda estávamos a entrar no supermercado para fazer as compras da ração para o dia!!! O trajecto foi em tudo semelhante ao de ontem. Almoçamos num lugarejo onde passavam mais tractores do que carros. E mesmo assim, só quando colocávamos a cadeira no meio da estrada, para gozarmos uns raios de sol delicioso, enquanto tomávamos mais um daqueles cafés “solos” deliciosos :|…
Siga para Sarria. Mesmo à entrada da cidade, cruzamo-nos com o japona, que mais parecia um muçulmano, de tão tapado que ia. Com luvas e até polainas, era bizarro vê-lo assim vestido com o calor que fazia. Perguntamos-lhe pelos amigos dele. Disse-nos que estavam à espera dele em Pedrouzo!!! Lol. Ainda lhe tentamos dizer que isso ficava a cerca de 90 kms do sítio onde estávamos, mas ele estava decidido a ir ter com eles nesse mesmo dia. Quem somo nós para demover um japona das suas ideias? Deixá-lo ir. Até o empurramos, para lhe dar lanço. Sayonara…
E nós, directos para a farmácia. O Paulo e a Susana estavam com ameaças de bolhas…Depois do banho, da lavagem de roupa e das compras para o dia seguinte, fomos jantar. Estava um movimento tremendo na cidade. E já agora, no albergue também. Demos com uma espanholitas que faziam barulho suficiente para irritar uma preguiça. E para ajudar à festa, a camarata era grande, o que implica muita gente e muitos sussurros, muitos fechos a abrir e a fechar, etc, etc. Isto foi o que nós achamos na altura…
A manhã seguinte chegou carregada de uma neblina que enregelava até aos ossos. Assim se manteve durante quase toda a amanhã. Mas meus amigos, quando o sol consegui romper os últimos fiapos desse denso véu que nos envolvia, foi uma caloraça que não se podia. Mesmo à entrada de Portomarín, tem uma brutal escadaria, que depois da jornada fatigante que tínhamos tido, foi como fazer o caminho para o calvário. Mas a paisagem lá em cima valia a pena. Depois, lá no centro da cidadela, lá encontramos o albergue. Já fazia fila à entrada e começamos a prever que com o avançar dos dias, o ingresso nos albergues seria cada vez mais difícil.
Se o albergue de ontem era grande e movimentado (tínhamos achado nós, lembram-se?) o de hoje parecia uma colmeia…tudo ao molho e fé em…Deus. Lá está, afinal de contas, estamos a falar de peregrinos profundamente crentes…ou então não!! Passamos a tarde a preguiçar na praça. Parece um trava línguas. Ora experimentem lá dizer isso alto: preguiçar na praça. Se estiverem no trabalho não o façam. O patrão pode não entender esse acesso inesperado de loucura. Força, agora sigam para: esse acesso :). Também tentamos ir à farmácia, mas a única existente na vila estava fechada. Disseram-nos para tocar na campainha ao lado, porque a dona da farmácia morava lá. Mas quando lhe dissemos que era para comprar uns míseros pensos para as bolhas, ela mandou-nos lamber sabão. Só que em galego! Que é mais ou menos assim: bán másé lambieri saboni
No dia seguinte começamos a etapa cedinho. O nevoeiro voltou a ser presença assídua, tal como a estrada nacional. Daqui em diante começa-se a perder o tipo de traçado mais rural e começamos a ver mais a estrada nacional, e a ter inclusive que a atravessar por diversas vezes. Mas continuamos a ter troços muito bonitos. E não estou a falar de coibes… Tivemos o prazer de nos cruzarmos mais uma vez com um peregrino que se fazia notar, pelo facto de por vezes o encontrarmos sentado a tocar umas melodias na sua flauta. Foi talvez uma das personagens mais marcantes de toda esta peregrinação. Chegados a Palas de Rei, ficamos numa camarata simpática, com menos gente que as anteriores, o que nos permitiria vir a descansar melhor. Depois das compras e por uma volta rápida pela vila, na qual finalmente encontramos uma ifreja aberta, lanchamos e jantamos num restaurante simpático e depois fomos para o ninho, que cá fora faz um calor soviético que eu vou dizer-vos uma coisa: brrrr
Melhor ou pior, os penantes foram-se aguentando. O Paulo há muito já tinha rebentado as bolhas que lhe surgiram logo ao segundo dia e a Susana, começou hoje a sentir o que é uma bolha a sério. Sem ser daquelas causadas por sapatos de gajas com preços pornográficos, que só se usam para ir a casamentos e depois não servem para mais nada. Estas são “as” bolhas de peregrino. Mas lá se foi aguentando. O dia hoje prometia molho vindo lá de cima, das nuvens que parecem tão fofinhas, mas quando lançam a água que têm a mais no seu interior são grandes inimigas dos caminheiros. Nestas coisas, vamos sempre muito prevenidos, mas o melhor mesmo é não termos que usar nada de impermeáveis e afins. Aquando da paragem para a pausa matinal, tinha lá uma placa com indicações em Alemão. Nesse preciso momento estavam a passar duas peregrinas que pelo seu linguajar nos pareciam ser dessas bandas. Tentamos meter conversa, mas elas logo se apressaram a informar que eram Austríacas. Mas não se safaram de nos aturar à mesma J. Eram muito simpáticas e informaram-nos que planeavam vir a Portugal ainda este ano. Trocamos logo contactos e foi amizade à primeira vista. Mesmo ao arrancarmos, tivemos que vestir os impermeáveis. Mas logo de seguida, voltamos a tira-los. Foi só um ameaço…almoçamos próximo de um café cujo tecto estava repleto de bonés. Estive quase para dizer “chapéus há muitos seu palerma”. Mas o homem podia não conhecer o grande Vasco Santana, e ainda me atirava com um pastelinho de bacalhau às fuças e depois ia ser o bom e o bonito. Sim, que eu nesta altura já não tinha forças para fugir :)
Chegamos a Arzua estafados, mas a nossa peregrinação desse dia ainda estava longe do fim…primeiro, foi a dificuldade em encontrar albergue que nos albergasse. Tudo cheio. Só à 4ª tentativa é que tivemos sorte. E num albergue privado. Depois…bem, depois é melhor passar à frente, directamente para o dia seguinte…muito cansaço, muita bolha, muita hormona descontrolada…
O percurso até Pedrouzo é muito calmo. Sem grandes motivos de aborrecimento nem de euforias. Ao chegarmos ao albergue deparamo-nos com uma fila de meia hora para fazer o registo. As camaratas são tamanho XXL e as condições são $%&#?!$. Enfim. Somos peregrinos, por isso está tudo bem. Voltamos a encontrar as nossas amigas Austríacas e lá estiveram a beber umas cañas enquanto jantávamos.
No dia da última etapa tiramos o rabinho da cama às 5h e quando começamos a caminhar estava escuro como breu. Em muitos troços tivemos que ir de lanterna acesa. Ou melhor, tivemos que ir a dar ao zarelho, porque a lanterna é daquelas sem pilhas. Nós somos muito ecológicos… A entrada em Santiago de Compostela cidade, é sempre uma grande confusão e perdemos quase a mística do caminho. Mas depois, à medida que nos aproximamos do centro, ela volta com toda a força e a emoção toma conta de cada um de forma diferente, mas a intensidade parece ser um elo comum. Depois do ritual do costume (chamadas para os mais próximos, abraços, fotos, oficina do peregrino para recolher a Compostela…) lá fomos para a catedral para assistir à missa. Mas pregaram-nos uma grande partida. Como era 5ª feira Santa, a eucaristia foi diferente e foi “interrompida” a meio para quem se quisesse confessar…no comments…
Fomos almoçar ao restaurante do grande Manolo, que a propósito não se chama Manolo!?!, com as nossas amigas Tina e Verónika (as Austríacas) e depois fomos para o Seminário Menor. Descansamos, tomamos banho, e voltamos à cidade para comprar as tradicionais pedras de Santiago e para jantarmos no Manolo. Pelo caminho ainda vimos a procissão típica desta quadra eucarística. Só os três. A Verónika e a Tina foram lá ter depois e estivemos a emborcar umas cervejas e umas bebidinhas que elas quiseram experimentar. Ele foi licor de ervas, aguardente e sei lá mais o quê. O que sei é que nos passou o frio e dormimos que nem uns anjos :)
Na manhã seguinte, botas ao caminho até à estação das camionetas, onde apanhamos a carreira para O Cebreiro. Quando lá chegamos nevava com fartura. Ainda bem que não começamos hoje o caminho!!! De coche até casa. Para este ano está feito. Para o ano há mais. Até lá.
A caminhada ao longo desta eco-pista tinha dois objectivos fundamentais: preparar uma parte dos elementos para uma prova bem mais dura que se avizinha, e aliviar a consciência nutricional de cada um, visto que no final do dia, iriam rumar à bela da Francesinha e da cervejola :)
Foi por isso um grupo numeroso e bem disposto, aquele que rumou a Valença para dar início a esta caminhada. Tratando-se de uma ecopista cujo piso se encontra totalmente asfaltado, foi possível a participação em massa de elementos que até nem são muito habituais. Mas a tónica da Francesinha também deve ter pesado de sobremaneira...
Utilizamos a estratégia habitual em termos de logística, sendo que antes de iniciarmos o exercício, colocamos estrategicamente uma viatura em Monção. Apesar do objectivo passar por fazer ida e volta, não era de desprezar a possibilidade de alguns dos elementos menos habituados a estas andanças poderem querer desistir a meio.
Foi uma caminhada agradável, efectuada sob um sol inclemente. A desistência após o almoço de 2 elementos, permitiu que a meio do trajecto de regresso presenteassem os restantes vagabundos com umas cervejas bem geladas. Talvez como preparação para a noite...
A actividade acabou em grande estilo e prazer gastronómico, com os vagabundos a banquetearem-se com uma excelente francesinha, para recuperar as calorias perdidas durante o dia, e com uma bela Dominus, cerveja Belga que acompanha esta iguaria tripeira com uma harmonia impressionante...afinal, vagabundos não são só caminhadas...
Frequentadores habituais que são da serra da Freita, os Vagabundos estavam com imensa vontade de efectuar esta rota, desde o dia em que foi anunciada a sua inauguração. No entanto, ao analisarem o percurso, constataram que a logística torna impossível a sua realização. Analisadas as opções possíveis, concluímos que ou nos armávamos em super-pedestrianistas e fazíamos de papa quilómetros, ou tínhamos que dividir esta rota em mais que uma actividade. Porque se por um lado, não há qualquer abrigo para pernoitar, por outro só há um local para acampar de forma legal! Isto para já não falar no facto de até à data, ainda não termos percebido como é que se faz a travessia do rio...
Para esta caminhada, apenas se mostraram disponíveis os vagabundos Paulo, Luís, Hélder e António. Este último, sendo uma contratação recente para o nosso grupo, merece ser apresentado ao estilo formal: Sr. António Lourenço. Foi obviamente bem vindo ao grupo, não só porque é um internacional, ou não tivesse ele efectuado já diversas caminhadas nos alpes franceses, local onde morou durante longos anos, mas também e sobretudo, porque está permanentemente imbuído de um espírito que harmoniza completamente com o resto do grupo: boa disposição e companheirismo e sobretudo, espírito de simplicidade perante a vida.
Como não conseguimos descortinar nenhuma solução para a questão da logística, optamos por dividir esta rota em duas partes, sendo que o objectivo passava pela realização de metade durante este ano, e o restante no próximo. Iniciamos esta actividade no centro de Arouca e tivemos que recorrer à logística habitual e à simpatia e disponibilidade habitual dos Bombeiros locais, neste caso os de Arouca. cederam-nos amavelmente instalações para nos banharmos e pernoitarmos. O jantar desse dia, ficou mais barato, pois ao olhar para o chão durante o percurso, os vagabundos encontraram uma nota que lhe facilitou as contas :)
Trajecto muito agradável, com o tempo a ajudar, e um espírito de camaradagem que tornaram estes dois dias muito agradáveis.
Apenas os vagabundos Paulo, Luís e Hélder estavam disponíveis para alinhar na tradicional caminhada de Sexta-feira Santa. Às 7:40h, juntaram-se rumo a Arouca, onde após o tradicional pingo, se dirigiram ao Santuário da Sra. do Monte, local onde se inicia este percurso. Eram 9:15h quando começaram a caminhar.
Esta é uma rota circular, com uma extensão de 19 quilómetros. Ao fim do primeiro quilómetro há uma bifurcação, no Fojo, pelo que se pode escolher fazer a parte circular começando por Bustelo ou pelo Alto do Coto. Por esta altura, estamos a uma cota de 829 metros e pela nossa frente, encontrava-se uma subida até aos 1222 m, com um declive muito acentuado. Pena que o tempo estivesse um pouco nublado, pois a paisagem para lá da névoa parecia ser deslumbrante. Era pelo menos essa a nossa ideia quando clareava um pouco, o que acontecia cada vez menos, à medida que subíamos. Face à dureza do declive, fomos perdendo um bocado da energia inicial, mas continuamos a avançar a um ritmo impressionante. Quando chegamos ao parque das eólicas, começou uma chuva, que inicialmente pensamos ser apenas uma pequeno ameaço, mas a verdade é que ao fim de dois ou três minutos em que prometia não abrandar, optamos por vestir os impermeáveis. Mais um pouco para cima e eis que chegamos ao marco geodésico. Finalmente, o Luís ficou a saber o que isso é. Pena que o Vítor não estivesse também presente. Teria sido uma excelente lição a dois!
O plano inicial passava por almoçar neste ponto, mas a forte chuva e o vento extremamente forte que se fazia sentir impossibilitou que o fizéssemos. Olhando à volta, parecia que estávamos no meio de uma tempestade, daquelas que só se vêem na televisão. Chuva, vento, nevoeiro…
Desta forma, começamos a descer, com a esperança que a chuva abrandasse e pudéssemos então merendar em melhores condições. A descida revelou-se uma enorme e divertida aventura. Efectuada por caminho de pé-posto, em virtude da chuva e do denso nevoeiro, praticamente só nos podíamos arriscar a sair de uma marca se estivéssemos a avistar a seguinte. Caso contrário, arriscávamo-nos a sair completamente do trilho. Houve uma ou outra ocasião em que tal não foi possível e tivemos que pesquisar o terreno envolvente. Tal tarefa revelava-se no entanto difícil e até mesmo perigosa. Se qualquer tipo de exagero, podemos dizer que depois de 5 passos dados em direcções opostas, já não nos conseguíamos ver uns aos outros. Era incrível e foi uma verdadeira aventura, que na verdade não desagradou a ninguém. Foi muito divertido fazer esta descida e a adrenalina foi subindo. No entanto, à medida que fomos descendo, foi-se tornando mais fácil seguir o trilho e paralelamente as condições meteorológicas foram melhorando, baixando em muito o índice de imprevisibilidade.
Depois de termos descido “tudo”, aproveitamos que já não chovia e optamos por almoçar perto do rio. Depois, voltamos ao caminho e só voltamos a parar para tomarmos um café numa aldeia.
Fomos seguindo o nosso caminho sem que a chuva nos atormentasse muito mais, até voltarmos ao ponto de onde tínhamos saído. Foi uma aventura muito porreira.
Para esta primeira actividade do ano 2010, reuniu-se um grupo de Vagabundos perfeitamente inédito. Nuno, Paulo, Mário, Luís, Vítor, Marta, Anabela e Hélder. Saídos de diferentes pontos geográficos, lá se encontraram todos para o tradicional pingo matinal, antes de rumarem à igreja onde se inicia esta rota.
Logo de início, o declive é acentuado, fazendo esquecer o frio que se fazia sentir e obrigando mesmo a tirar alguns dos agasalhos iniciais. Um dos principais problemas com que nos deparamos não é novo: marcação do percurso muito defeituosa e ausência de documentação que compense essa situação (os prospectos dos percursos disponibilizam pouquíssima informação). Por isso mesmo, a dada altura vimo-nos a passar num ponto onde já havíamos passado!
Tivemos que voltar para trás, por um caminho perfeitamente penoso, o que nos deixou um pouco derrotados psicologicamente. Episódios destes repetiram-se mais algumas vezes. De tal forma, que no final, não soubemos dizer qual a percentagem correcta que fizemos do troço.
Uma coisa é certa, caminhamos as horas “normais” neste tipo de actividades e pertencendo ou não ao trilho original, os caminhos percorridos foram muito agradáveis, não só pelo magnífico espírito de amizade e companheirismo do grupo, mas também pela beleza dos mantos de neve que fomos vislumbrando. Obviamente que um dos passatempos preferidos nesta actividade, foi quebrar as poças de água congeladas… coisas de criança J
No final, estávamos todos cansados, sobretudo psicologicamente, pelo tempo que passamos à procura do trilho correcto, mas o balanço geral era de satisfação, por mais um dia passado em grande camaradagem.
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