Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

Mix de Caminhos - de 12 a 15 de Outubro de 2013

Sábado, 12 de Outubro de 2013 – DE LUGO A FRIOL

Os convites foram endereçados e os desafios aceites.

Cada um iniciou a preparação à sua maneira, com as suas limitações, os seus medos, as suas expectativas e as suas motivações.

O plano envolvia a possível participação de 6 vagabundos, mas um desistiu mesmo antes de dizer sim. Dos restantes 5 que abanaram afirmativamente a cabeça, todos chegaram à linha da partida o que permitiu que esta fosse uma experiência em tudo inovadora.

Mas nem só o número de vagabundos presentes à partida era inovador. O próprio caminho também o era. A começar em Lugo, o Paulo engendrou um esquema que contemplava a ligação do Caminho Primitivo ao do Norte por uma via alternativa, e daqui ao Francês. Seria por isso uma oportunidade única para quem pela primeira vez participava nesta aventura, pudesse experienciar de uma só vez vários Caminhos :)

A recolha começou às 5h00. Vindo de Oliveira de Azeméis, o vagabundo Luís deveria recolher em Sandim o Mário. Mas logo aqui surgiu o primeiro contratempo. Ao contrário do que pode acontecer numa situação destas, ele não adormeceu. Simplesmente não acordou :D

Assim, o trajecto foi alterado, mas tudo se resolveu e no final, o importante é que os 5 vagabundos António, Hélder, Luís, Mário e Paulo estavam a bordo com todas as tralhas e a caminho de Lugo.

Neste primeiro dia o objectivo era chegar daqui até Friol pela via "das setas verdes". É uma alternativa que um peregrino se entreteve a marcar e em nossa opinião com muito sucesso, pois tirando um ou outro pequeno troço, o trajecto é globalmente muito agradável.

Depois do atraso vespertino já mencionado, o pequeno-almoço também foi demorado. Havia festa em Lugo e por isso as confeitarias estavam a abarrotar. Depois de percorrermos o interior da muralha que estava muito animada, com direito a mercado medieval e tudo, saímos da Catedral de Lugo quando o relógio já batia as 12h30 e atravessamos pela porta de Santiago, já meios almoçados, porque sítio para comer neste trajecto, só daí a 17 Km.

Seguimos pelo meio do bosque e durante muito tempo com a agradável companhia de um rio. Lá fomos lançando umas piadolas, mas neste primeiro dia houve muita reflexão individual. Quando a fome começou a apertar, fizemos um desvio de 1 Km para irmos até um bar junto à estrada chamado Arcádia, onde comemos um belo queijo, presunto e polvo à galega, tudo regado com umas belas Estrella Galicia.

A segunda parte da etapa ficou claramente marcada pela cultura musical do Luís, que desencantou do fundo do seu baú a música da chibinha mé mé mé que não sabe de quem é!!! Ficamos maravilhados, mas no final de contas, o Mário e o António também já conheciam este achado musical. Claro que daqui e até ao final, não se cantou mais nada.

Para que não julguem que somos invejosos, decidimos compartilhar convosco esta pérola da música portuguesa http://www.youtube.com/watch?v=mQLGlQdWJP0&sns=em

Mesmo antes de chegarmos à pensão onde iríamos ficar esta noite (em Friol não há albergue), encontramos num jardim um grupo de reformados muito bem-dispostos. Lá estivemos à conversa com eles. Só quando chegamos à pensão é que tomamos contacto com os primeiros peregrinos do caminho. Sete ao todo (um grupo de alemães e outro de franceses). Depois de jantarmos, recolhemos ao quarto onde mamamos umas bolachas e um belo Vinho do Porto (que vinha a pesar demasiado na mochila :D)

O Mário ainda teve direito a umas massagens feitas pelas mãos milagrosas do António. É que o joelho já dava sinais de empeno ;/

 

 

Domingo, 13 de Outubro de 2013 – DE FRIOL ATÉ SOBRADO DOS MONXES

O dia começou preguiçoso. Eram 08h00 e ainda estávamos a descer para o pequeno-almoço. Ao descer as escadas, o Mário apercebeu-se que apesar das massagens e dos smarties cor-de-rosa aditivados, não estava capaz de fazer os 24 Km que tínhamos pela frente. Assim, depois de completarmos todos os procedimentos habituais, saímos para a rua para procurar uma camioneta que o levasse a Lugo. A nossa história divide-se por isso em duas partes.

Como não havia camioneta o Mário tentou levar ao limite o espírito de vagabundo, mas depois de tentar a boleia, mesmo arregaçando as calças não teve sorte. Por isso foi caminhando no sentindo inverso ao que havíamos feito ontem e com maior ou menor dificuldade, acabou por chegar ao local onde havíamos almoçado. Caminho é mesmo assim. Cada um faz o seu e mesmo se formos pela mesma via, cada qual faz o seu, com as suas experiências, os seus ensinamentos, as suas reflexões próprias e individualizadas. Assim como se o caminho tivesse inteligência própria. O caminho pode não o ser, mas a vida é seguramente e tem o dão de nos colocar em pontos, situações e contacto com as pessoas certas sem que isso seja propriamente obra do acaso...é o que eu acho ;)

Deixando-me de meditações filosóficas e passando à prática: a senhora voltou a servi-lo principescamente e ainda lhe arranjou uma boleia até Lugo. Depois de recolher o carro ele veio ao nosso encontro até Sobrado dos Monxes.

Os restantes vagabundos seguiram o trilho que lhes estava destinado. O caminho neste troço é um bocado deserto. Inicialmente ainda caminhamos em paisagens agradáveis, mas depois torna-se um bocado monótono. Mesmo assim passamos por lugares de interesse como sejam um moinho, cruzeiros, pontes muito bonitas e algumas árvores de fruta :P... alguma, mesmo selvagem, como as amoras que eu e o Luís nos consolamos de comer. Outra não era tão selvagem, mas a verdade é que não saltamos nenhuma cerca para a apanhar e assim fomos enganando a barriguinha. É que ela ia dando horas e não havia maneira de se encontrar um sítio onde pudéssemos ferrar o dente em alguma coisa de jeito. A determinada altura tivemos que atravessar um riacho e para tal, tivemos que descobrir o caminho das pedras para não nos enterrarmos até ao joelho. Passamos por muitas aldeias agrícolas e em certos sítios tivemos que abrir e fechar cancelas que delimitavam pastagens de gado e propriedades agrícolas. Felizmente não apareceu ninguém atrás de nós com uma arma na mão :P

Uma das vezes em que passamos por uma pequena manada foi possível sentir o calor que as bichas irradiam. Só conseguimos encontrar algo onde ferrar o dente quando chegamos a Méson. O repasto não foi tão bom como o de ontem, mas a fome apertava... neste ponto faz-se a ligação ao Caminho do Norte e daqui até ao nosso destino deste dia foram só mais 5 Km.

O albergue fica mesmo no interior de um Mosteiro e chegamos mesmo no momento certo. Por um lado porque estava a abrir, por outro porque começou a chover como se não houvesse amanhã. Depois do banho visitamos o Mosteiro e fomos jantar cedinho. Hoje era o dia dos empregados preguiçosos. Depois do que encontramos ao almoço, saiu outro agora à noite. E este come mais que os clientes todos juntos :)

Ao regressar ao albergue fomos até à cozinha fazer a "avaliação nocturna" da etapa e comer umas amêndoas torradas acompanhadas de Vinho do Porto (que continuava a pesar na mochila e por isso urgia acabar com ele antes que ele acabasse com as nossas costas :D).

Antes do jantar já nos tínhamos apercebido que havia na camarata um roncador profissional. E nem com os "estalidos de língua" (que é um termo muito técnico), ele se calou. Às tantas o Paulo pegou nas tralhas e foi dormir para a cozinha. Talvez à espera de ter sonhos saborosos :P

 

 

Segunda-feira, 14 de Outubro de 2013 – DE SOBRADO DOS MONXES ATÉ O PEDROUZO

Depois do tradicional pequeno-almoço tomado num café mesmo em frente ao Mosteiro, pusemos os pés ao caminho para uma etapa que se adivinhava muito dura. Tínhamos pela frente 36 Km que haveríamos por constatar mais tarde que não tinham grandes atractivos paisagísticos. Até chegarmos a Boimorto ainda vá. O caminho é parcialmente realizado no meio de bosques. No entanto, depois de termos parado nesta localidade para um reforço do pequeno-almoço (e que belo reforço, com pão quentinho acabado de sair do forno, queijinho e presunto...inhami), a coisa complica-se. Só se vê asfalto durante 15 Km e para além de monótono, é um troço muito duro. Isto também porque seguimos pela variante que nos leva directamente a Santa Irene sem passar por Arzúa. Com esta escolha poupamos algum tempo de caminho, o que tendo em conta as nossas limitações de calendário era mandatório.

A opinel voltou a ser utilizada para serviços de sapataria recreativa e após essa intervenção, o Luís ganhou uma vontade e ânimo novos para caminhar. Diz ele que ganhou umas sapatilhas novas para mais uns anos de caminhadas :)

Como habitual, chegados ao albergue de O Pedrouzo e comemos na cafetaria Che. Deitamo-nos cedo porque amanhã temos que sair da cama às 05h30. Mas não sem que antes nos juntássemos na cozinha para terminar o Vinho do Porto acompanhado por umas bolachas tradicionais cujo sabor ninguém conseguiu definir. Mas todos fomos unânimes em admitir que sabiam a bolachas de quando éramos miúdos. Seja lá isso o que for :P

Agora pela noite começou a chover não perspectivando nada de muito bom para amanhã...o Luís tem estado em negociações com o S. Pedro e para já tem-se saído muito bem. Eu nem quero abrir a minha boca porque na semana santa não me entendi lá muito bem com ele :D

 

 

Terça-feira, 15 de Outubro de 2013 – DE O PEDROUZO ATÉ SANTIAGO

Eram 04h30 quando acordei e já sem sono. Vim para o átrio do albergue escrever. Coisas... :P entre pensamentos, recordações e sonhos futuros, o caminho é pródigo em proporcionar momentos assim. E eu gosto de deixar fruir a coisa :)

Já estava um peregrino preparado para sair. Chovia a cântaros e eu perguntei-lhe se ele conhecia o caminho, ao que ele me respondeu que sim. Eu alertei que tinha um bom bocado de bosque pela frente e ele disse para eu não me preocupar. Ainda o ajudei a colocar o poncho para tapar bem a mochila e desejei-lhe um bom caminho. Pelo sotaque inglês, parecia ser americano. Cada vez se vêem mais a percorrer os trilhos de Santiago...

Quando o relógio bateu as 05h30 fui acordar os meus companheiros de jornada e voltei ao átrio já com as minhas tralhas todas na mão para arrumar dentro da mochila (de forma a não incomodar os outros peregrinos que ainda dormiam; procuro deixar tudo o mais pronto possível na noite anterior de modo a não ter sacas nem fechos para correr). Eis que tocam à campainha do albergue. Abri a porta e era o meu amigo americano que tinha voltado para trás. Tinha-se perdido e no escuro e com uma chuva medonha a fazer-lhe companhia, tomou a decisão mais acertada e voltou ao ponto de partida. Convidámo-lo a seguir caminho connosco. Depois de inicialmente dizer que não nos queria atrasar, com a nossa insistência lá acedeu a vir connosco e ficamos a saber que se chama John e que começou o caminho em St. Jean Pied Port com 68 anos. Agora já tem 69 o que quer dizer que celebrou o aniversário pelo caminho :) Este é o 33º dia de caminho para ele e sempre sozinho. Descobriu que tem cancro e decidiu embarcar numa experiência espiritual. E aqui está ele, feliz da vida, encantado por a vida lhe ter proporcionado esta oportunidade mágica. Eu bem disse que caminho é mesmo isto. Cada um faz o seu, com as suas lições...

Sempre a dizer que não nos queria atrasar, lá foi seguindo ao nosso ritmo. Obviamente que nos adaptamos porque nunca o iríamos deixar para trás. E o Mário até agradeceu, porque apesar dos joelhos lhe terem permitido voltar à estrada, o ritmo não pode ser exagerado. Mas isto foi só de início, porque a partir de determinada altura, os joelhos aqueceram e já ninguém o agarrava :)

A primeira parte do trajecto foi muito dura porque no escuro e a chover copiosamente, tivemos que testar a nossa tenacidade ao limite. Por vezes aos tropeções, mas lá fomos avançando, sempre com a chuva por companhia. Só fizemos uma pequena pausa para um café que nos aqueceu a alma e um bocadillo que nos acalmou as entranhas e depois de nos despedirmos do John, que preferiu ficar para trás já o sol ia alto, chegamos a Santiago por volta das 11h30. Só deu tempo para trocar a roupa e recolher a Compostela, mas mesmo assim quando entramos na Catedral, já a missa ia nas leituras. Depois dos rituais costumeiros, fomos à rua das "Pedras de Santiago" onde acabamos por comer e fazer umas comprinhas. Seguiram-se outras casas comerciais e quando todas as lembranças já tinham sido compradas, foi hora de ir buscar o carro a O Pedrouzo e recolher ao Seminário Menor. Regressamos à cidade para jantar no Manolo e depois de uns belos 14 chopitos!!!!, fizemos algo inédito: ver o exterior da Catedral à noite. Numa só palavra: brutal...

A reter deste caminho e desta noite em particular em que tudo o que se passou neste caminho foi lembrado por todos os vagabundos:

1. oh Lourenço, tu estás-me a foder!!!

2. é a chibinha me me me, é a chibinha que não sabe de quem é

3. o almoço prometido pelo António

4. as fotografias demoradas do Mário, que se calhar até vão ficar boas...não se sabe é quando :D - Mário, atenção que sem fotografias não há o ponto anterior...

5. era um indivíduo de uma certa idade...que idade?!?!?

6. tá beim...tá beinhe...

Só os vagabundos sabem o que cada uma destas coisas significa e para eles não há necessidade de qualquer explicação. Para os outros, perdoem-nos, mas é mesmo só nosso :P

Grande caminho, grande experiência. A ideia mais marcante que aqui fica é que caminho é mesmo assim. Cada um tem a sua história e mesmo caminhando uns atrás dos outros em fila indiana, cada qual faz o seu, com os seus pensamentos, com as suas aprendizagens, com as suas lições, mas num espírito de companheirismo e amizades muito fortes. Eu adorei e acho que valeu bem a pena. Espero que todos tenham sentido o mesmo. Uma palavra de apreço e agradecimento aos vagabundos que pela primeira vez alinharam nesta experiência. Bem hajam ;)

publicado por vagabundos às 15:10
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Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Caminho do Norte (de Baamonde a Santiago) - de 31 de Agosto a 4 de Setembro de 2013

Depois de muita indecisão sobre qual o caminho a realizar, a escolha acabou por recair no Caminho do Norte. Para realizar um mínimo de 100 quilómetros que dessem direito à Compostela, o início deveria ser em Baamonde. O objectivo não era propriamente fazer o mínimo dos mínimos, mas o calendário assim o impunha. Depois de alguma preparação e programação, nos dias que antecederam o início desta peregrinação trouxe, como não podia deixar de ser, medos, indecisões e dúvidas de última hora, referentes às etapas a realizar, ao local onde deixar o carro e aos transportes disponíveis para depois o recolher, ao calçado e ao equipamento a levar...enfim, tudo normal :)

Por fim, a programação das etapas ficou com o seguinte perfil:

1 - Baamonde - Miraz = 20 Kms

2 - Miraz - Sobrado dos Monxes = 26 Kms

3 - Sobrado dos Monxes - Arzúa = 21 Kms

4 - Arzúa - O Pedrouzo = 19 Kms

5 - O Pedrouzo - Santiago Compostela = 20 Kms

 

Sábado, 31 DE Agosto de 2013 - DE VILA NOVA DE GAIA A BAAMONDE (DE CARRO) E DAÍ ATÉ MIRAZ (A PÉ)

A alvorada foi bem cedo. Mas nem por isso começamos a caminhar à hora programada. Há sempre imprevistos que impedem o cumprimento à risca dos planos. Neste caminho, juntaram-se dois vagabundos improváveis: Anabela e Hélder.

 

Nesta primeira etapa, deveríamos começar a caminhar em Baamonde e terminar em Miraz. Só trocamos a borracha dos pneus do carro pela das solas das botas quando já eram umas 11h30. Tomamos o pequeno-almoço no café A Rotonda, onde aparcamos o coche, e onde um pobre atendia sozinho à mesa, preparava os pedidos e ainda tratava do caixa, o pedido de uns 20 clientes!! O albergue fica mito próximo deste café e por isso fomos até lá tirar a fotografia da praxe. Trocamos de imediato favores com um peregrino espanhol. Ele quitounos una foto, e nós tiramos-lhe uma fotografia a ele. Ele não ficou muito satisfeito e reclamou com a foto que eu lhe tirei. As palavras dele foram "me has ponido gordo" :) - mas eu juro que não distorci a realidade!!!

 

 

Os primeiros 30 a 40 minutos de caminho foram bastante aborrecidos. Só calcamos alcatrão e as vistas são para uma linha de combóio. Quando finalmente saímos da estrada e atravessamos a dita linha "para o lado de lá", tudo se alterou.

 

      
 
 O piso, que passa a ser em terra. A paisagem, que passa a ser uma verdadeira representação da natureza, e até a nossa disposição mudou. As línguas soltaram-se e os pensamentos, que até aí haviam estado aprisionados entre a pasmaceira da estrada e a nossa disposição "limitada", seguiram o exemplo e também eles passaram a estar em estado de plena liberdade, alimentando conversas bem interessantes. Toda a envolvência mudou, de tal forma que nem demos pelos quilómetros passarem e em menos de nada chegamos a Carballedo, onde tem um local bem catita para comer uns bocadillos e umas empanadas, que podem ser acompanhadas por um belo sumo de naranja natural ou por bebidas engarrafadas.

 

   
 
   

 

Nós, todos orgulhosos do nosso magnífico castelhano, ficamos embatucados quando a senhora que nos estava a atender começou a falar connosco em português do Brasil. Claro que a nossa curiosidade obrigou a que perguntássemos como raio apareciam enterradas no meio da Galiza duas (sim, porque entretanto chegou a irmã) brasileiras. Lá nos explicaram que a família é desta região mas que alguns tinham emigrado para o Brasil em busca de novas e melhores oportunidades e que elas tinham nascido e vivido do outro lado do oceano. Conhecem muito de Portugal e em breve pretendem fazer mais uma visita. Terminado o nosso bocadillo, tomamos um café e depois das contas feitas, abalamos para os restantes quilómetros desta etapa.

 

     
 
   
  

Passamos a ter a companhia quase constante de 2 jovens espanhóis. Um deles, nem sei porque é que leva mochila. Bastava-lhe ter duas alças e uns elásticos porque levava quase todo o material no exterior: meias, toalha, chinelos, água...em boa verdade não devia ter nada lá dentro :)

 

 

Domingo, 1 de Setembro de 2013 - DE MIRAZ A SOBRADO DOS MONXES

Das 6h30 em diante já não houve sossego na camarata. Zips e velcros são práticos e amigos dos peregrinos...quando estes se encontram acordados!! Porque no silêncio da noite, criam mais bordel que um elefante a caminhar dentro de uma cristaleira. Às 7h fomos tomar o pequeno almoço, que neste albergue nos é oferecido. Bem, oferecido é uma maneira de dizer. Em boa verdade pagamos mais 1 euro ontem quando fizemos o check-in. Pão, manteiga, marmelada, café e leite. Pelo preço não se pode pedir muito mais. Nem nós queríamos mais :)

 

Às 7h50 começamos a caminhar. Na fase inicial do trajecto é muito parecido com a paisagem e envolvente com que terminamos ontem, percorrendo ruas estreitas, onde impera a presença de cocó bovino :) e com casas típicas de agricultores. Depois entramos em traçado de montanha, com subidas e descidas constantes, piso em terra e com muitas pedras e com muita vegetação. Depois de um pedaço de grande introspecção, as línguas, os pensamentos e os sentimentos/lembranças ganharam vida própria e voltamos a ter uma etapa em que a beleza do caminho passou despercebida face ao contacto próximo e à sintonia que mantivemos. De tal forma, que nem demos pelos quilómetros passarem e quando demos por nós, eram 13h30 e estávamos a chegar ao nosso destino. Após cerca de 25 kms, estávamos um bocadinho moídos, mas nem uma paragem fizemos e o nosso estado energético estava elevadíssimo. Estivemos um bocado indecisos entre ficar por aqui ou irmos já até Boimorto, mas o facto de o albergue estar inserido nos claustros de um mosteiro e de o ambiente ser propício a muita meditação, ajudou-nos a tomar a decisão de parar.

 

   
 
   
  

 
     
 
Comemos uma sandocha e depois estivemos a aproveitar a paz dos jardins do mosteiro. Por aí fomos passando a tarde. Ao finalzinho, ainda com um calor magnífico, tomamos um belo banho, que é sempre retemperador. Tratamos da roupa e preparamos os beliches. Como ainda me sobram algumas frases do Paulo, vou distribuindo a alguns peregrinos, mas agora já tem que ser de forma "regrada", pois já não dá para todos :).

 

Temos conhecido gente interessante e de todos destaco aquele a quem inicialmente apelidamos de "D. Juan do Chile". Não sei porquê, mas este homem é um galanteador nato. E não julguem que me refiro a engatar miúdas. Ele tem a capacidade de lançar "charme humano" sobre todos em geral. Para além de um poliglota talentoso, é extremamente simpático e afável, e fala com toda a gente conseguindo adaptar-se ao estilo de cada um. Chama-se Álvaro. Há também um trio de espanhóis, entre os quais está um niño de 10 anos. Já compartilhamos um compeed com eles e insistiam que amanhã o queriam devolver. Espírito de peregrino. Mas eu acho que não quero. Para além de pouco higiénico já não vai colar! Espírito de parvo :P

 

Há também uma italiana que está a fazer o caminho sozinha, um grupo de 3 russas, um casal de dinamarqueses, enfim...não falta variedade :)

Fizemos uma visita ao mosteiro e valeu bem a pena. É imponente! Explicaram-nos que em tempos esteve revestido de musgo para que não lhe cobiçassem a beleza. Ainda hoje pertence à ordem religiosa de Cister, que para além de muito rica, é extremamente poderosa. Coisas de religião :P

 

   

  

Fomos ao supermercado do Cláudio comprar tomate e uma empanada, que serão acompanhadas por uma cola e uma coronita. Também compramos fruta e água para amanhã. Fomos preparar a salada para a cozinha do albergue e vamos falando com os restantes companheiros de jornada. Quanto mais os conhecemos, mais nos apercebemos de como são simpáticos e divertidos. Vamos oferecendo coisas e ajuda uns aos outros. Aceitamos uma sopa da nossa vizinha italiana (que por sinal estava deliciosa), emprestei o meu canivete suíço para o nosso amigo chileno, que também tem nacionalidade alemã) poder abrir uma botella de viño rojo...foi um serão muito bem passado.

 

 

Fomos depois beber um café ao que se seguiu a tentação do dia. Quando há pouco fui às compras não resisti a comprar um licor de hierbas que se vende em sticks como os do açúcar dos cafés. Ideia brilhante :)

Hasta mañana chicos e chicas ;)

 

 

Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013 - DE SOBRADO DOS MONXES A...SALCEDA!!!

O dia começou semelhante ao anterior. Depois de arrumarmos as tralhas todas (é incrível a tralha que se consegue meter dentro de uma mochila) tomamos o pequeno-almoço habitual: tostadas e café, na praça logo ao lado do mosteiro. Pouco passava das 8h quando nos metemos ao caminho e o primeiro peregrino que vimos foi o nosso amigo chileno. Seguimos na sua companhia durante um bocado, discutindo sobre religião, economia, a natureza, tudo e nada!! É uma daquelas pessoas que dá gosto conhecer. Hoje está a prever ir até Sta. Irene, ou seja, vai fazer mais Kms que nós, que só vamos até Arzúa. Ficamos a saber que trabalhou no norte da Alemanha durante muitos anos como criativo de publicidade. Mas era um pouco contra a sua natureza porque sendo contra o capitalismo, sentia que acabava por contribuir para o mesmo através do seu trabalho. Então deixou essa vida e comprou um "espaço" num dos sítios do globo que eu mais gostaria de visitar. Adivinhem lá onde? Pois bem. Se responderam Patagónia é porque me conhecem bem e acertaram em cheio :) Claro que troquei contactos com ele e tenciono MESMO ir visitá-lo. Talvez aproveite para na mesma viagem cumprir outro sonho e consiga ir a Machu Picchu...

 

  

    

  

   
 
Entretanto ficou para trás para tirar algo da sapatilha e nós seguimos caminho. Ele disse que nos voltaríamos a encontrar e não se enganou. Depois de uns bons Kms em paisagens e terrenos bem agradáveis de trilhar, ao longo dos quais a conversa e a boa-disposição fluíram com naturalidade, paramos num belo jardim mesmo à entrada de Boimorto para comermos as ameixas que tínhamos comprado no dia anterior e eis que ele nos apanha. Já vinha acompanhado de outros peregrinos e ainda ficamos um bocado na conversa, mas como já tínhamos terminado, lá abalamos antes deles. Caminho é mesmo assim. Nunca se está sozinho, mas também não há prisão entre ninguém. Entramos então numa zona mais monótona, pois o caminho segue principalmente por estrada. Ao chegarmos a Arzúa há uma subida de primeira categoria, mas superámo-la com distinção. Tanta que apesar de este ser o nosso destino programado de hoje, não nos apeteceu parar e palavra puxa palavra, decidimos que o nosso destino desse dia podia ser mais adiante. Assim, depois de metermos qualquer coisita no bucho, voltamos a meter os pés ao pó do caminho. Sim, pó porque felizmente voltamos a sair da estrada e a percorrer trilhos bem mais agradáveis. Seguimos assim até Salceda em amena cavaqueira e aí dirigimo-nos ao albergue privado. Acabamos por fazer mais uns quilómetros do que estava previsto, mas não vamos tirar qualquer partido disso em termos de roteiro. Foi apenas porque nos apeteceu. Caminho é mesmo isso. Amanhã deveremos seguir até O Pedrouzo. Quer isso dizer que temos pouquíssimos Kms para percorrer. Mas algo me diz que não é por acaso. A ver vamos :)

 

 

   

 

 

Terça-feira, 3 de Setembro de 2013 - DE SALCEDA A O PEDROUZO

Hoje preguiçamos um bocado. Só vamos caminhar uns 7 ou 8 kms, por isso podemos dar-nos a esse luxo. Esquecemo-nos de carimbar as credenciais no primeiro café. Talvez pelo facto de não termos parado lá para tomar nada :P!!

 

Assim, decidimos que iríamos parar no seguinte para esse fim e aproveitaríamos para tomar um café ou um sumo. O tempo continua fantástico. Muito sol, uma brisa que corre suave e uma temperatura que durante a manhã é muito agradável para caminhar, embora se torne excessiva durante a tarde. O trajecto é agradável, passando essencialmente entre vegetação. Há depois um troço em que se caminha paralelamente à estrada nacional e é precisamente aí que começam a aparecer estabelecimentos comerciais. Quando decidimos optar pelo primeiro, estávamos longe de pensar que iríamos lá ficar muito para além do combinado. Mas precisamente sentado nesse café, estava o nosso amigo chileno. Lembram-se de referir que nada é por acaso? Muito provavelmente foi esta a razão. Passamos aqui um dos melhores bocados de partilha que o caminho nos proporcionou até agora. Juntamente com o Álvaro estava um peregrino brasileiro que se encontra a fazer o Caminho Francês. 

 

  

   
  

Depois de 2 dedos de conversa com eles, onde se juntou de forma estranha mas muito divertida o português (de Portugal e do Brasil) e o Castelhano, eis que chegam junto de nós um trio de portugueses de Rebordosa, que são em si mesmos a personificação da boa disposição e do espírito da malta do nuorte carago :)

 

Com uma alegria e simpatia contagiantes, ao bom espírito de peregrinos lá ficamos todos sem nos conhecermos, mas a falarmos como se de amigos de longa data se tratassem. Chegaram entretanto mais duas portuguesas que eles também conhecem, uma alentejana e outra de Peniche. Por último juntou-se-nos uma coreana que foi a estrela da companhia. Franzina e de aspecto frágil, com sessenta e tal anos, anda a fazer o Caminho Francês sozinha e quando lhe bateram palmas à sua chegada, até com a dança do Gangnam Style nos brindou :) foi fabuloso. Simplesmente único e imperdível. Depois de mais um bom bocado, lá seguimos caminho todos juntos. Mais uma vez entretive-me numa conversa encantadora com o Álvaro sobre a vida, igualdades, injustiças e outros temas interessantes. Tão entretidos estávamos que nem demos pelo tempo passar e em menos de nada chegamos ao albergue. Ele não vai ficar aqui. Diz que quer dormir ao relento. Despedimo-nos com um abraço e a garantir que nos havíamos de voltar a ver. Da minha parte, garanti-lhe que se não fosse em Santiago, seria por certo na Patagónia.

 

Promessa feita. Mesmo que o volte a ver em Santiago :D

 

Fomos fazer o check-in no albergue e como não desayunamos, saímos directos para o Che Café para comer uma bela salada. Já estávamos a ficar um bocado fartos de tantos bocadillos. De volta ao albergue tivemos mais um momento fixola, o Álvaro ainda se mantinha por aqui e estava a beber uma caña, acompanhado por um italiano, e a guardar que o calor amainasse. Ficamos sem perceber muito bem se era peregrino ou apenas um vagabundo do mundo. Ali ficamos a conversar sobre guerras, religião, poder, pobreza e sítios interessantes para se visitar. Falamos sobre pesca, espécies em vias de extinção, ganância humana e muito mais. Foi "apenas" mais uma lição de vida e mais um momento agradável. Não posso deixar de referir que este italiano e cidadão do mundo se fazia deslocar de bicicleta. No lugar da habitual garrafa de água, trazia uma de tintol :) Muito bom!!!

 

Depois de um jantar em que repetimos o menu do almoço, e no qual houve temas de conversa variados, e interessantes, ao recolher ao albergue tivemos uma agradável surpresa, pois um grupo de músicos tradicionais da Galiza estava à porta a tocar músicas baseadas em gaitas de foles e bombos, acompanhadas de puro improviso peregrino, ao dançarem músicas totalmente desconhecidas com movimentos que pouco tinham que ver com o estilo de música, mas que permitiu mais um momento de excelente disposição e de pura magia. Foi de facto um dia mito agradável ;)

 

 

Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013 - DE O PEDROUZO A SANTIAGO

Ontem terminei o post do blog cedo de mais :(

 

Pouco depois de nos deitarmos e adormecermos, eis que surgem do nada alguns dos maiores inimigos dos peregrinos. Os chamados "peregrinos de mierda"...

 

Um grupo enorme de jovens espanhóis que estava a fazer o caminho, sem qualquer respeito pelos demais utilizadores do albergue, estiveram aos berros em cantorias e "vivas los coños" quase até à uma da manhã. Como se isso não bastasse, quando recolheram às camaratas foi um bater de portas, aberturas e fechos de zips e sacas plásticas, capazes de enervar a mais pacata alma à face da crosta terrestre. E o estupor do cenário repetiu-se às 5h da manhã, quando decidiram levantar-se. Sabemos que o desabafo que se segue não é digno de peregrinos, nem sequer de um bom ser humano, mas pqop...Santiago havia de lhes espetar com os bastões nos cornos quando lá chegassem :)

 

Depois deste desabafo já me sinto melhorzinho :P

 

Ainda o sol tardaria a surgir quando saímos do café já com o pequeno-almoço no bucho. Ao dirigirmo-nos ao caminho, encontramos uma peregrina espanhola que no escuro estava indecisa sobre por onde seguia o caminho. Andava a fazer o Caminho Francês sozinha e nós dissemos que nos podia acompanhar pois já tínhamos passado por aquele bocado e sabíamos por onde seguia. Ela estava a mancar um pouco e quando começou a ver as setas agradeceu e disse que ia ao ritmo dela, mas como sabíamos que íamos atravessar bosque cerrado ainda no escuro, decidimos seguir junto dela. Durante cerca de 1 hora tivemos que seguir com as lanternas acesas e muito atentos às indicações pois o caminho é feito totalmente no meio de árvores e vegetação. Quando se começou a ver a luz do dia e encontramos o primeiro café, ela agradeceu muito a nossa companhia (acho que ela nunca teria feito aquele bocado sozinha) e ficou por ali para o pequeno-almoço. Lá seguimos a nossa jornada.

 

 

Como já vem sendo tradição, paramos para um reforço alimentar no parque de campismo entre a Televisão da Galiza e a RTVE e quando passamos ao Seminário do Monte do Gozo já começamos a arrebitar o nariz pois já cheirava a Santiago...e não era à tarte :P

 

   
 

Adivinhem lá quem foi que encontramos mesmo à entrada da cidade? O nosso amigo Álvaro :D

 

Acho que sempre dormiu ao relento e acordou com uns turistas italianos a achar que ele era a encarnação do próprio Santiago :P

 

Percorremos juntos os poucos metros que nos separavam da antiga porta da muralha e disfarçadamente ele deixou-se ficar para trás ao chegarmos à praça do Obradoiro. De maneira que este foi um momento muito especial e de grande emoção. Já cheguei a Santiago com muitos estados de espírito diferentes, mas chegar com esta companhia depois de um caminho tão agradável era algo por que ansiava e foi um momento magnífico.

 

  

Quando fomos recolher a Compostela voltamos a encontrar o Álvaro e fomos todos convidados para entrar num documentário. Infelizmente não pudemos aceitar porque era condição de exigência que estivéssemos na missa desse dia e do seguinte. Nesse dia poderíamos estar, mas limitações de calendário impediam-nos de estar presentes no dia seguinte. Ao separarmo-nos, ele já na companhia da assistente de realização, voltamos a despedirmo-nos e a prometer que nos haveríamos de voltar a ver. Ao que ele respondeu: quanto mais não seja, no ecrã :D

 

 

 

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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

CAMINHO PRIMITIVO (de Fonsagrada até Santiago de Compostela)

O caminho começa muito antes de darmos o primeiro passo. Começa mal tomamos a decisão. A partir desse momento, inicia-se uma preparação que vai do físico, ao mental, passando obviamente pelo espiritual.

 

Tentamos acautelar todos os pormenores, por isso a preparação é rigorosa. Desde a escolha do equipamento, das etapas a realizar, dos meios de transporte, etc, nada é deixado ao acaso.

 

Pode por isso dizer-se que a realização deste caminho se iniciou há quase um ano. Depois de alguns candidatos a fazer-nos companhia se terem apresentado para escrutínio, no final e apesar de todos terem sido aprovados, acabaram os suspeitos do costume: o Hélder e o Paulo.

 

O Paulo teve uma ideia de recolher frases de pessoas famosas que falassem de CAMINHO. Depois "chateou" uma data de gente e conseguiu traduções em espanhol, francês, inglês e alemão. A ideia é irmos distribuindo-as ao longo do trajecto. Um incentivo ou talvez apenas uma tentativa de tocar quem se cruze connosco.

 

Admiro o trabalho que ele teve e como a única colaboração que me pediu foi que o ajudasse a distribuir as frases, conto fazê-lo com todo o gosto ;)

 

Deixamos o conforto das nossas casas e dos dias programados, pelo desconhecido. No caminho como na vida, por vezes o que sabe melhor é aquilo que não parece lógico nem está programado. Talvez por isso me dê tanto gosto levar a cabo esta actividade e, não é por certo por acaso, que já vou para o quinto :) - para o Paulo este será o quarto. Engraçado eu já ter feito mais que ele, quando foi ele que me motivou a fazer o primeiro! Curiosidades da vida ;)

 

 

DOMINGO, 24 DE MARÇO DE 2013 - FONSAGRADA A CÁDAVO BALEIRA - 27 kms

 

Começamos por entrar na igreja de Fonsagrada, que ainda estava às escuras, mas onde já estavam os ramos prontos a serem benzidos. Depois de um primeiro momento de introspecção, começamos a caminhar por volta das 9:30 e tivemos que vestir os impermeáveis, pois a chuva já marcava presença.

 

 

 A chuva e o frio! Uma em conjunto com o outro, faziam doer as mãos, quase ao ponto de não termos vontade de manter os bastões em uso. As pontas dos dedos nem se sentiam! Mas a verdade é que o terreno enlameado e escorregadio não nos permitia dispensar estes elementos. Em boa verdade, foi uma pena que o nível de pluviosidade fosse tão intenso. Não nos permitiu desfrutar da paisagem que era mesmo assim brutal. Por vezes conseguíamos tirar os carapuços da cabeça, de modo a podermos trocar algumas palavras, mas por períodos muito curtos. Na generalidade do tempo, fomos calados, cada um acompanhado pelos seus demónios e pelos seus anjos.

 

 
   

 

O caminho é extremamente acidentado, com subidas e descidas constantes e com troços a fazer lembrar um percurso de montanha.

 

 

   

  

 

        

Almoçamos num restaurante do caminho, no qual o dono dizia a todos para não escolherem nada que não estivesse no menu. Caso contrário não saberia preparar. As opções não eram muitas: bocadillo ou hamburguesas :)

 

Após o almoço o tempo melhorou um bocado. Tivemos inclusive alguns momentos de sol. Mas foi de pouca dura, porque pouco tempo depois a água voltou a brotar dos céus...e se começou timidamente, mais para o final da etapa perdeu toda a vergonha e revelou-se em todo o seu esplendor! Até com granizo levamos no lombo. Foi mais de hora e meia de chuva torrencial. Nem as subidas íngremes que nos foram aquecendo permitiram que aquecêssemos um bocado.

 

Quando vimos o albergue ao longe até ganhamos motivação extra. Mas esvaiu-se quando vimos as fracas condições que nos esperavam. Encharcados até aos ossos, aquilo que mais queríamos era um banho quente. E tivemo-lo. Mas isso não é tudo. Há que pensar no depois. Com a roupa do corpo molhada, mas com alguma dentro da mochila no mesmo estado, dava imenso jeito ter uma máquina de secar. Infelizmente neste albergue isso não existe. Lamentavelmente, nem cordas para pendurar a roupa!!!

 

O que nos valeu, foi a simpatia e disponibilidade da D. Maria Jesús e do Sr. Adolfo, proprietários de um café/restaurante chamado "Las Três Espuelas", e com quem já tínhamos travado conhecimento na noite anterior aquando do jantar. A máquina de secar avariou há duas semanas, mas ligaram o aquecedor e deixaram-nos pôr tudo lá perto. E depois de nos enlambuzarmos com uma monumental travessa de massa com salsichas, deixamos lá tudo durante a noite e fomos descansar. Não sem antes trocarmos dois dedos de conversa com a hospitaleira Lola, que é uma simpatia.

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE MARÇO DE 2013 - CÁDAVO BALEIRA A LUGO - 30 kms

 

A noite foi arrepiante! Choveu torrencialmente e não agoura nada de bom para o dia que aí vem. Preguiçosamente lá fomos juntando as tralhas, e com tudo enfiado num saco plástico oferecido por um português de Viana do Castelo que partilhou a camarata connosco, lá nos dirigimos debaixo de chuva para o café da D. Maria Jesús. Recebeu-nos com a habitual simpatia que a caracteriza e preparou-nos o pequeno-almoço tradicional: tostadas con café solo e descafeinado cortado.

 

As nossas indumentárias estavam bem melhores, mas houve peças que não secaram completamente:(

 

Pedimos-lhe sacas para meter tudo dentro, e ela arranjou-nos umas grandes para metermos a mochila. Fizemos uns cortes para as alças e rezamos a Santiago para que a resguardasse da chuva. Fizemos mal. Acho que ele percebe pouco de impermeabilizações, devíamos era ter metido uma cunha para ele falar com S. Pedro. Assim, depois de nos despedirmos do simpático casal que tinha um galo de Barcelos a fazer a previsão meteorológica e que não cantava boas novas, lá metemos os sapatos (ainda húmidos) ao caminho.

 

Não há muito para contar sobre este dia. Foram mais de 6 horas de chuva contínua! Não houve um minutinho que fosse de tréguas. Almoçamos bolachas e madalenas numa mercearia !?! mas se tentássemos entrar noutro sítio acho que nos expulsavam. Molhados e enregelados até aos ossos, nem sequer fomos ao albergue e dirigimo-nos directamente ao Albergue Residencia Xuvenil Lug II, onde sabíamos existir máquina de secar. Ou isso, ou a certeza de que amanhã iríamos caminhar com roupa molhada logo à saída :(

 

A água era tanta, que os nossos pés estavam com rugas causadas pela humidade. Imaginem meter os vossos sapatos dentro de um tanque, tirem-nos de lá e depois calcem-nos. Pronto! Agora já sabem o que estávamos a sentir. Foi assim que fizemos mais de 20 kms. Sim, porque nos primeiros, o calçado impermeável ainda se aguentou, mas depois disso, foi um chlop chlop constante. Houve um sítio em que havia uma poça tão grande que ocupava todo o caminho. O  Paulo começou a rir-se e disse "agora é que vamos testar o calçado". Testar o quê se temos os pés todos molhados? - perguntei-lhe eu. E ele responde "testar se eles flutuam!!"

 

Felizmente, o sítio onde vamos pernoitar tem secadora. Foi tudo lá para dentro. A roupa de ontem, de hoje, e até os sapatos!!! Neste momento ainda não sei qual vai ser o resultado, mas depois partilho ;)

 

Eles servem refeições, por isso nem arriscamos a meter o nariz fora da porta. De primeiro prato pedimos massa, e de segundo pedimos massa :D

Amanhã há mais. E espero que haja mais variedade...

 

 

TERÇA-FEIRA, 26 DE MARÇO DE 2013 - LUGO A MELIDE - 52 kms

 

Nem só caminhando é que se faz caminho! E isto é tão verdade literalmente, como também simbolicamente.

 

Como era nosso desejo, não faltou variedade no dia de hoje :P

 

Curiosamente, tudo começou ontem à noite!?! com o hospitaleiro a bater-nos à porta. Na sua boa fé, estando os sapatos ainda húmidos ao final do primeiro ciclo de secagem, o que não admira nada, ele meteu num segundo. E mesmo assim não ficaram bem secos, mas antes que eles

pegassem fogo, ele achou melhor não os deixar lá ficar mais tempo.

 

Foi o Paulo que foi à porta receber o homem. Com toda a sua boa vontade, explicou orgulhosamente o que tinha feito. O Paulo quando viu os sapatos com as biqueiras viradas para cima, teve vontade de chorar, mas como fazê-lo perante tamanha simpatia do hospitaleiro? Mandaram as regras da boa educação e do bom senso agradecer primeiro, esperar que ele virasse as costas em segundo, e só depois de fechar a porta, pensar se havia de rir ou chorar!! Imaginem os vossos sapatos com o calcanhar pousado no chão e a biqueira a apontar para o céu!!! Quando ele tentou meter os pés lá dentro, descobriu que nas ultimas horas os pés lhe tinham crescido uns 2 números!! Ou teriam sido os sapatos a encolher?!?

 

 

Desiludido, ele tentou partilhar o sucedido comigo, mas a única resposta que obteve foi um ronco :)

 

Da necessidade surge o engenho. Qual Gepeto dos sapatos, sentou-se a trabalhar. Começou por cortar o forro de impermeabilização. Depois de lá meter os pés dentro, constatou que a situação estava melhor. Decidiu ir até ao corredor verificar o resultado. Concluído ficou que não seria capaz de ir longe a caminhar, foi mais longe no arrojo e engendrou um protótipo capaz de arrasar nos grandes desfiles de Milão e Paris.

 

 

 

 

Quando o despertador tocou às 6:30, a primeira coisa que ele me disse foi "oh irmão, estamos quilhados". Escusado será dizer que quando vi o modelito, ri-me quase até às lágrimas. Depois decidimos falar de coisas sérias. O cenário não era famoso. Os meus sapatos, já sem o forro, também não agouravam nada de bom e se tentasse caminhar mais que 10 minutos com eles, iria provavelmente ficar sem unhas.

 

  

Desanimados e com a chuva a marcar a sua presença, decidimos ir tomar o pequeno-almoço. Neste momento a nossa intenção passava por nos dirigirmos à estação de bus e apanhar o autocarro para Santiago.

 

No nosso íntimo decidimos que este caminho teria que ser concluído numa outra altura. Sempre dissemos que o caminho vale por si mesmo e não pela chegada a Santiago. Mas nem este caminho estava a valer muito (devido à chuva torrencial, não conseguimos trocar experiências com outros peregrinos, que é uma das coisas mágicas que sempre acontecem - em boa verdade, parece nem sequer haver outros peregrinos!!!), nem a razão pela qual estávamos quase a desistir nos parecia razoável. Se houvesse uma lesão que nos impedisse de continuar...ou outra qualquer circunstância aceitável, ainda vá. Mas desistir porque a chuva foi tanta que nem o calçado impermeável resistiu, nunca esteve nos nossos horizontes.

  

 

Mas porque caminho é mesmo isto, ou seja o inesperado da situação, a constante alteração de planos, enquanto comíamos surgiu a ideia de ir procurar uma loja de desporto para substituirmos o nosso calçado.

 

Ao deambularmos no centro da cidade, um condutor abordou-nos pensando que buscávamos o albergue. Quando lhe explicamos o sucedido e lhe perguntamos se não haveria uma Decathlon por perto, ele disse que havia a uns 2 ou 3 Kms. Tal qual umas crianças mimadas, lançamos-lhe um beicinho e ele lá acedeu a levar-nos até lá.

 

Uma vez lá chegados, fomos em busca de calçado impermeável. Obviamente tínhamos consciência do risco de caminhar com calçado novo, sem estar adaptado ao pé. Normalmente resulta em bolhas, mas agora a ideia de desistir tinha ficado lá atrás, antes do pequeno-almoço. Agora nem que fosse de crocs, tínhamos que chegar a Santiago pelo nosso pé. Doesse a quem (ou onde) doesse ;)

 

À saída voltamos a ser bafejados pela sorte, pois um casal muito simpático acedeu a trazer-nos de volta para o centro de Lugo. Como perdemos imenso tempo nestas voltas, optamos por seguir até Melide de autocarro e descansar um pouco o corpo e a mente. Por isso comecei por dizer que nem só caminhando é que se faz caminho! Se foi batota? O espírito dos caminhos é mesmo este, adaptar-nos ao que nos vai acontecendo, traçando sempre novas rotas. Assim é também no nosso dia-a-dia...

 

Ao chegarmos à estação encontramos o peregrino de Viana do Castelo que vinha fazendo o caminho com o pai. O pai tinha desistido na noite anterior, vergado ao peso (físico e psicológico) da chuva. O filho tinha acabado de lhe seguir os passos e também estava à espera da camioneta. Ainda o convidamos a seguir o caminho connosco. Acompanhado, sempre teria mais força para continuar. Mas com tudo na mochila molhado e cansado de tanta chuva, a única coisa em que pensava era em voltar para casa.

 

A viagem prosseguiu assim até Melide, onde fomos fazer o nosso registo no albergue. Muitos outros peregrinos tiveram a mesma ideia. Talvez porque as condições são excelentes, com bons balneários, máquinas de lavar e secar. Assim, todos puderam fazer um reset e voltar a recuperar forças para seguir em frente. A hospitaleira Maria é extremamente simpática e estivemos um pouco na letra com ela.

 

Ao fazermos a distribuição das frases, houve um peregrino que perguntou ao Paulo se queria um donativo :)

 

Depois do banho, fomos visitar o meu amigo Juanito. Tinha-lhe prometido em Agosto passado, que se voltasse a passar por aqui o vinha visitar. Recebeu-nos com a mesma simpatia do ano anterior e ofereceu-nos uns chopitos (de café e de hierbas).  Depois passamos o resto do tempo até ao jantar a ler as previsões meteorológicas para os próximos dias e a ver o jogo de Portugal.

 

 

Ao regressarmos ao albergue, ainda estivemos na conversa com um peregrino paralímpico que conhece o norte de Portugal e que tem na sua página web o nome de todos aqueles que colaboram na sua actividade.

 

Agora está na hora da caminha. Amanhã temos uma etapa dura pela frente...

 

 

QUARTA-FEIRA, 27 DE MARÇO DE 2013 - MELIDE A SALCEDA - 25 kms

 

Chuva, chuva, chuva...e ainda mais chuva!!! Que surpresa. Depois de já termos levado com morrinha, chuva forte e granizo que até magoava as mãos, viramo-nos lá para cima e gritamos bem alto "olha lá, é isto o melhor que consegues fazer." Aparentemente não era :|

 

A seguir ao almoço em Arzúa, onde comemos um belo bocadillo de queso, parecia que o tempo nos iria dar algumas tréguas. Mas essa impressão durou muito pouco tempo, pois ao fim de meia hora de caminhada, tivemos que vestir novamente os impermeáveis. E se tivéssemos dois, teríamos posto um em cima do outro :)

 

Ao passar pelo centro, onde fica o albergue, já lá estava um grupo grande de peregrinos, desejosos que abrisse para se resguardarem, mas nós optamos por seguir adiante.

 

Tal como já referi ontem, temos vindo a verificar que comparativamente ao caminho do ano passado, também efectuado na semana santa, temos encontrado muito menos peregrinos. Fruto das péssimas condições climatéricas, muitos devem ter desistido, e ainda mais nem sequer devem ter chegado a começar!! Mas em compensação encontramos um jovem japonês que não fala inglês, nem francês, e só sabe umas poucas palavras de espanhol. Veio do Japão sozinho propositadamente para fazer o caminho!!! Caminhava de sandálias e meias...agora imaginem, no meio da lama que vos descrevi :| - para além disso, trazia uma mochila que devia pesar uns 12 Kgs. Oferecemos-lhe um café e demos-lhe um bocado de ânimo.

A linguagem gestual vale imenso :)

 

Para além de chuva, chuva, chuva, a nossa mente começa a processar outra informação também ela muito dolorosa: bolhas, bolhas, bolhas... e pés com muitas dores e em mau estado :(

 

Foi já com algum sacrifício que chegamos ao albergue, distanciado cerca de meio quilómetro do caminho. Este albergue é privado. Não sendo mau e tendo apenas 8 camas, é sossegado e razoavelmente asseado. Mas para instalações privadas, tinham obrigação de ser melhores. Muito claramente, são inferiores às do albergue público de Melide.

 

Conhecemos duas alemãs (mãe e filha) chamadas Sylvia e Liza. A Liza tem apenas 11 anos e está a ter a sua primeira experiência deste género. Ela diz que está a gostar, mas as condições meteorológicas não estão a ajudar para que ela desfrute da paisagem e do contacto com outros peregrinos. Jantamos na companhia delas e trocamos contactos. Desejamos felicidades para as próximas etapas. Como estão a fazer o caminho com muita calma, talvez ainda consigam desfrutar do sol daqui por dois ou três dias. É que as previsões para amanhã são mais do mesmo :s

 

 

QUINTA-FEIRA, 28 DE MARÇO DE 2013 - SALCEDA A SANTIAGO DE COMPOSTELA - 27 kms

 

Saímos tarde do albergue, mas o objectivo era chegar a Santiago apenas a tempo da missa do peregrino, ao final da tarde. Por isso tínhamos bastante tempo. Além do mais a motivação não era grande. Os nossos pés estão miseráveis e a chuva continua a ser a única companhia do caminho.

 

Perto de Sta. Irene há um sistema automático de som que ao detectar movimento dispara a seguinte mensagem "hola, bienvenido peregrino blabla". Trata-se de publicidade a um albergue privado. É giro durante o dia, mas tenho a impressão que se algum peregrino passar aqui durante a noite, tem mesmo que ir a este albergue. Quanto mais não seja, trocar a cuequita :P

 

Optamos por tomar o pequeno-almoço apenas quando passássemos por Pedrouzo. Já eram quase 10h quando paramos no mesmo sítio onde o ano passado havíamos feito o mesmo (confeitaria Che 4). A única diferença é que o ano passado eram umas 6h da manhã :) - muito simpáticas, as funcionárias ainda nos ofereceram uns pastéis miniatura, que por sinal eram muito bons.

 

Para não variar, a chuva, a lama, o vento... marcaram presença. Sim, ainda não tínhamos referido, mas fruto da muita chuva dos últimos dias e semanas, o caminho está todo enlameado, ao ponto de em certos sítios estarmos enterrados quase até ao tornozelo. Com as bolhas cada vez mais agrestes, cada passo foi ao longo deste último dia um verdadeiro calvário. Afinal de contas, estamos na semana santa, não é? :)

 

Para além de impedir o contacto com outros peregrinos, este tempo também não ajuda a desfrutar a paisagem. Almoçamos a cerca de 9 kms de Santiago. Lembrávamo-nos vagamente que daqui em diante o percurso era sobretudo em alcatrão. Por isso, antes de comermos, procuramos uma torneira e lavamos as botas e os impermeáveis. Não nos podemos apresentar perante Santiago todos borrados de terra :)

 

Para não variar, a chegada a Santiago foi feita debaixo de chuva. Manda a tradição, de quem faz o Caminho Primitivo ou o Francês, que deve entrar na Catedral pela porta da Praça da Imaculada. Mas nós preferimos ir sempre à Praça do Obradoiro.

 

Há sempre um misto de alegria, emoção e sentimentos bacocos à chegada. Mas este ano acho que isso foi mais latente. Talvez pelo facto de termos estado quase a desistir, ou porque estávamos massacrados pela chuva e pelas bolhas, ou por qualquer outra razão, a verdade é que parecíamos dois putos. Abraçamo-nos, tiramos fotos, olhamos um grupo de peregrinos que tinha chegado de bicicleta, completamente encharcados e muito badalhocos, e com quem partilhamos experiências e emoções, ali mesmo, sempre debaixo de chuva. Uns deitam-se no chão, outros sentam-se, outros ficam apenas ali parados a contemplar a grandiosidade da Catedral. Mas ninguém consegue ficar indiferente a uma sensação brutal de ter passado por muito, mas mesmo assim ter cumprido o objectivo a que se propôs. Só mesmo quem experimenta e vive esta experiência consegue compreender. É por isso que nenhum peregrino estranha as reacções dos restantes. Mas é muito fácil que um turista de Santiago pense que os peregrinos são chonés, fruto das reacções que têm nestes momentos :)

 

 

Fomos então buscar a Compostela e trocar as camisolas molhadas. É de lamentar que num local destes, não tenham um WC para o podermos fazer. Este foi aliás tema no jantar. Inclusive, deveriam ter um chuveiro, principalmente para os ciclistas poderem colocar-se confortáveis e quentes para irem à Catedral. E até mesmo um local para lavar bicicletas, etc. Mas isso são outras questões... 

 

Entramos então na Catedral e demos uma pequena "volta" pela mesma. Optamos por não cumprir agora os rituais. A fila para abraçar o Apóstolo é imensa e temos que nos apressar pois queremos assistir à missa, mas ainda temos que ir tomar um banho para vestir roupa seca. Depois de um momento de reflexão, dirigimo-nos ao albergue Seminário Menor.

 

 

Depois da missa (que não foi a tradicional do peregrino por estarmos em dia santo) e visto que a porta para abraçar o Apóstolo já se fechou e não volta a abrir hoje, saímos para dar uma volta rápida para ver as lojas de recuerdos. Há sempre coisas novas. Algumas totalmente inúteis, mas esta é mais uma coisa que só os peregrinos entendem. Por vezes sentimos necessidades de comprar uma palermice que nos lembre cada caminho em particular, ou qualquer pensamento ou decisão que tenhamos tomado, ou qualquer outra coisa que nada diz a quem não vive uma experiência destas.

 

Fomos então ao restaurante Casa Manolo jantar. Como sempre, fomos atendidos com imensa simpatia e não pudemos deixar de comer a tradicional tarte de Santiago, devidamente abafada por um licor de ervas...e depois um segundo...ok, e um terceiro, quarto e mais não digo :) - depois da dureza do caminho, há que recuperar as mazelas. Quando saímos de lá, já não nos doía os pés :D

 

Mas que surpresa!! Está a chover torrencialmente à saída do restaurante :D - como as calças do impermeável ficaram a secar, chegamos ao albergue molhados até ao cuecame...mandamos mais umas bocas lá para cima a dizer que isto não se faz, mas acho que não nos deram ouvidos...vamos mas é dormir que os chopitos aquecem-nos.

 

 

SEXTA-FEIRA, 29 DE MARÇO DE 2013

 

Às 5h da manhã, um grupo de peregrinos (escuteiros portugueses) levantou-se para sair. Alguns deles acharam que já era hora de todos os restantes peregrinos se levantarem porque começaram a falar alto.

 

Saímos do albergue por volta das 9h e fomos tomar o pequeno-almoço. Depois dirigimo-nos ao centro. Aproveitamos que ainda não há muita gente e vamos cumprir os rituais (abraço a Santiago, onde encontramos um padre português e com quem trocamos breves palavras, ir à capela de que mais gostamos, apesar de ser das mais simples, etc).

 

De novo no exterior e apesar de termos dado uma voltinha ontem, acabamos por não comprar nada, por isso, há que o fazer hoje. Lembranças para nós próprios, e para quem merece :)

 

Aproveitamos que tínhamos tempo livre para irmos visitar o museu das peregrinações. É barato e vale bem a pena. Para visitantes normais custa 2,5€. Não que nós sejamos anormais, mas pelo facto de sermos peregrinos pagamos menos 1€. Com um modelo brutal da Catedral logo na primeira sala, o museu estende-se por 3 andares e oferece aos visitantes, a possibilidade de conhecer mais em detalhe o historial da Catedral e das peregrinações, com recurso a muitos meios interactivos, havendo inclusive um jogo de PC para entretenimento mas ao mesmo tempo aprendizagem histórica.

 

O tempo continua chuvoso. Para não variarmos muito, comemos mais uma sandocha. Finalmente tivemos uma trégua lá de cima e aproveitamos para ficar na praça a ver os (poucos) peregrinos que chegam. É muito giro estar a observar. Percebemos perfeitamente o que eles sentem, mas é diferente estar assim sossegado e ver os outros. Nunca tínhamos reparado, porque quando nós chegamos estamos muito virados para dentro. Por isso nunca nos tínhamos apercebido como é bom estar assim.

 

As tréguas duraram pouco, por isso vamo-nos entretendo abrigados, até que nos venham buscar.

 

Aproveitamos para deixar uma palavra de agradecimento e afecto para a família que foi incansável durante esta semana. Vieram trazer-nos e buscar-nos, e estiveram sempre disponíveis para colaborar.

 

Fomos todos jantar ao Manolo e depois ala para casa...já a pensar no próximo :D

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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012

Caminho Primitivo de Santiago - 11 a 15 de Agosto 2012 (feito como o café daqui: sólo :))

SÁBADO, 11 DE AGOSTO DE 2012

 

(Esta é uma vagabundagem diferente das demais por uma série de razões. Desde logo pelo inusitado facto de ser feita a solo. E apesar de (por este motivo) não poder ser considerada uma actividade dos Vagabundos, é pelo menos realizada por um dos seus membros, que quis partilhar parte desta experiência. Aqui vão poder encontrar diariamente uma pequena resenha desta nova aventura)
ATÉ LUGO 7h35 - estação de Campanhã. Pela primeira vez, desde que realizamos os Caminhos de Santiago, decidi deslocar-me até ao local do início de peregrinação em transportes públicos. Prevê-se uma estirada de mais de doze horas, mas penso que será compensatório, até pela experiência. De mochila às costas pelo mundo. Este é um dos sonhos que tenho há muito tempo e esta, será uma bela ocasião para sentir um pequeno perfume dessa ideia peregrina!!

 

O comboio está atrasado. Não! Não vou cair na tentação de dizer "vê-se logo que estamos em Portugal"! A previsão indica que serão só 10 minutos e não coloca em risco a minha próxima ligação. Tudo bem...ok, a nova previsão já indica 20 minutos. Afinal ainda vou comer um sandocha. Um pão com queijo custa € 1,65!! Ainda pensei que o homem me fosse servir queijo da serra, mas não. Era queijo fatiado dum hipermercado qualquer...a culpa é minha. Devia ter trazido de casa. Minha e do atraso do comboio, que se tem partido a horas, já não me tentava a vir comer nada :) Por falar em atraso, afinal vai ser meia horita....mentira! 45 minutos de atraso e finalmente lá parti em direcção a Tui. O bilhete custou 11€ e depois lá dentro, pagamos mais 3,5€ para ir até Vigo. Graças ao atraso, já não apanhei o das 12h13 em direcção A Corunha. Vou no das 13h05. Paciência! O bilhete custa 14,05€, mas enquanto que do Porto para cá vim num comboio a vapor com motor diesel (!?!), agora vou num comboio todo catita. Não devia ter dormido tanto na primeira viagem. Se sabia tinha-me guardado para agora.

 

A barriguita já reclama, por isso, toca a comer a bola que trouxe da padaria portuguesa. Ah! E a bolacha húngara :) - claro que tinha que trazer disto. Que vício :P

 

Encontrei um grupo de portugueses que vão para Santiago...de comboio!!! Lol. Mas vão todos equipados como se fossem peregrinos. Mochilas, sacos-cama e outras tralhas com aspecto de nunca terem sido utilizadas. Fazem barulho por eles e por todos os portugueses que não puderam vir...não tenho sorte nenhuma!!!

 

O tempo está merdoso. Deixei o impermeável em casa. Será que me vou arrepender? Afinal ainda guardei algum sono para este comboio. Parece que nesta matéria tenho créditos com fartura. Chegado à Corunha, é hora de procurar a estação dos autobuses. Na verdade quem tem um iPhone tem tudo. Mapa, GPS e cá estamos nós. Eina, ganda confusão...não há indicações e tem que se perguntar a 7 pessoas para se ter uma informação de jeito...e agora grande seca de mais de uma hora. A camioneta é só às 17h30. Enquanto espero, amarfanho uma sande de tomate e mozzarella que trouxe de casa. E as restantes húngaras vão fazer companhia à outra :)

 

Finalmente saímos. Sentou-se uma senhora ao meu lado que ocupa o lugar dela e mais metade do meu. Já sei como é que se sente uma sardinha dentro de uma lata. Dormi todo o caminho com a tromba colada à janela. Devia parecer aqueles peixes que se colam aos vidros dos aquários a comer o verdete. Ainda bem que ia neste lugar, porque se fosse no dela, acordava no meio do corredor :) o bilhete do autocarro custou 10,10€. Estas informações são para a remota possibilidade de alguém algum dia querer fazer a mesma experiência.

 

Lugo é uma cidade muito bonita. Tem uma enorme muralha a abraçar a cidade e é muito calma. Ou então foi tudo de férias para outro lado e só cá ficaram os peregrinos :) - e são mais que muitos!! O número ultrapassa os 80, segundo me disse o simpático estalajadeiro. Fala português melhor que eu próprio e tal como a maioria dos Galegos, é a simpatia personalizada. Parece que os peregrinos são tantos que nem tenho lugar no albergue. Ora fo#%$£-se!! Mas também já passa das 19h.

 

Deu-me indicação do Centro Juvenil Lug II, onde vim ter com facilidade graças ao mapa que ele me deu. Mais um estalajadeiro 5* que me deu um quarto onde estou sozinho. Mas paguei 13€!! Depois, rotina: fazer compras, tomar banho, lavar a roupa (na maquina que aqui não têm tanque), jantar e agora dormir. Hoje vou ter que dispensar a night :) - hasta mañana

 

 

DOMINGO, 12 DE AGOSTO DE 2012

 

07h00 - a sair do albergue. Bem no centro da cidade escolho um café para desayunar. Visito a catedral de Lugo, que é brutal e onde, às 7h30 já se encontram crentes a mandar mensagens fé voz lá para cima, e meto pés ao caminho. Ainda se vêem muitos jovens a voltar a casa vindos da noite. Não sei se é por o sol aqui ser mais preguiçoso. A esta hora ainda não está totalmente de dia!

 

De início é difícil se estamos no caminho certo porque há poucas indicações. Mas depois começam a aparecer em força. Que monotonia. Só se caminha em estrada. Há apenas 2 ou 3 pequenos troços que são feitos por caminhos paralelos no meio da vegetação, mas voltou sempre para a rua. Peregrinos nem vê-los. Ou saíram mais cedo, ou mais tarde, ou caminham a um ritmo muito diferente. O que também não se vê, são sítios onde comer ou beber alguma coisa.

 

O meu objectivo hoje era San Román de Retorta, mas cheguei tão cedo que não vou ficar aqui. Ainda não é meio-dia! Como a laranja e a bucha que trazia, tomo um café (algo parecido) e continuo estrada fora. Aqui há uma divisão do caminho. Sigo por um antigo caminho romano, que ouvi dizer ser mais bonito, e que se junta ao oficial em Ponte Ferreira, onde fica o próximo albergue. São só mais 10 kms.

 

Agora estamos em plena baixa montanha. O percurso sobe e desce constantemente. A ponto de uns peregrinos ciclistas fazerem todas as subidas a pé!! O tempo está muito fraco e inclusive já senti uns pingos. Medo!!! Chegado a Ponte Ferreira paro para comer um bocadillo de jamón con queso e bebo uma Estrella Galicia que me sabem pela vida. O albergue fica a uns meros 300 mts e como não tenho visto ninguém a passar, deixo-me estar a preguiçar ao sol. Peço um café e entretenho-me a ver uns peregrinos a chegar e a pedirem morfes. Quando já estou farto de estar ali, decido ir para o albergue, que apesar de ficar perto é privado e aceita reservas. Por isso, quando perguntei se tinha vagas, vi o hospitaleiro a abanar a cabeça: lo siento diz-me ele. Não mais do que eu, respondi-lhe a rir-me. Bem, o próximo é em Seixas e fica a 6,5 kms. Tinha eu saído há uns 30 segundos quando ouço alguém atrás de mim "perdón, ola". Quando me virei dei de caras com o bacano da receçao (novo acordo ortográfico) que me pergunta "estás sólo?" Eu olhei em volta e tive vontade de lhe dizer "Não! Estou com o Sancho Pança, mas ele dorme em cima do burro!!". Mas como não estava em posição de me armar em parvo limitei-me a responder "Sim, estou sozinho". Então ao estilo de quem emite um comunicado real, ele atira-me a seguinte boa nova "a Dona manda dizer há um lugar vago". Óptimo, digo-lhe eu. Vou atrás dele, faço check-in, ponho o carimbo na credencial, pago os 10€ de um albergue privado e vou todo lampeiro escada acima atrás dele. Quando chegamos à camarata vejo-o a abrir um gavetão por baixo da cama inferior de um beliche. E o que é que havia lá dentro? Ora adivinhem lá? Para isso, era preciso que alguém tivesse paciência para ler esta porcaria, mas tá bem). O que estava dentro do gavetão era nem mais nem menos que um colchão!! Então o plano era esse. O gajo queria que eu dormisse numa gaveta. Assim ao estilo morgue mas sem o cheiro a formol! Mas o problema nem era dormir no gavetão. O problema era a falta de espaço, que implicava que os meus pés e a minha cabeça fossem ficar demasiadamente próximos das caras de outros peregrinos. Foi a minha vez de lhe abanar a cabeça como os burros. Não! Aqui é que eu não fico. Prefiro dormir na beira da estrada. Agradeci e lá voltei para a estrada. O problema é que com esta história perdi mais 20 minutos. Mas não adianta pensar nisso. Há-de ser o que tiver que ser.

 

Acho que já consigo entender os peregrinos que vão para Fátima e fazem 50 kms num só dia. A partir de determinada altura os pés e as pernas mexem-se com vontade própria e levam-nos até ao fim do mundo. A nossa cabeça é que atrapalha com mariquices: ai que amanhã vou estar cansado e não me vou aguentar nas pernas; ai que vou ficar com cãibras; ai que não posso mais...e por aí fora. Se pudéssemos vir sem a cabeça, era que nem ginjas :)

 

Ainda bem que vim até aqui. Este albergue é bem mais simpático e limpo. E mais barato, já agora. E está quase vazio. O único inconveniente reside no facto de não haver nada em redor para comer. Mas liga-se a encomendar o jantar. Agora é só tomar banho, lavar a roupa, esperar pela comida e toca a ir para a caminha. Amanhã há mais ;)

 

 

SEGUNDA-FEIRA, 13 DE AGOSTO DE 2012

 

5h00 - já não tenho sono. Não tenho paciência para estar aqui deitado. Vou levantar e arranjar-me. Meia hora depois estou a sair do albergue. Comi pão seco que sobrou do jantar e um café que tirei da máquina de moedas. Está escuro como breu, por isso recorro à lanterna do meu telemóvel. Os bastões vão na outra mão. Tenho que ter muitas cautelas para não falhar nenhuma indicação.

 

Meia hora depois torna-se claro que preciso de uma alternativa sob pena de ficar sem bateria antes de ter luz do dia. Assim, pego na minha lanterna de dínamo e lá vou a dar ao zarelho. Mas isto quase não dá luz. E logo hoje o caminho tinha que ser todo no meio do bosque.

 

Parece-me claro que me perdi! Já não vejo nenhuma marca há uns dez minutos, mas também não percebo onde é que me posso ter enganado. Mas não restam dúvidas. Tenho que voltar atrás. Que bosta!

 

Ups! Que grande perro me saiu ao caminho. Liguei outra vez o telemóvel e é claro que estou perante um cão de enorme porte e com um ar muito pouco simpático. Eh lá, e vem na minha direcção...se à luz do dia já seria assustador, aqui no meio do nada, sem qualquer casa por perto e no meio desta escuridão é verdadeiramente aterrador!! Afinal já não quero voltar atrás. Que se lixe o caminho. Vou seguir em frente que isto há-de ir dar a algum sítio.

 

Mas isto parece perseguição. Mais dois cães no meio da rua e não me deixam avançar! Estou encurralado e perdido. Que nóia! E agora, o que é que faço? Vou esperar a ver se passa um carro. Estou tolo. Às 6h50 no meio do nada?!? Que desespero!! Vou esperar pela luz do dia. Talvez me ajude a pensar com mais clareza. E os cães que não se calam. Felizmente que nenhum veio atrás de mim. Limitaram-se a não me deixar passar.

Por volta das 7h10 começam a ver-se os primeiros farrapos de luz. Não é muito, mas já consigo ver uns 10 metros adiante e como o primeiro cão se calou há uns 5 minutos, resolvo voltar atrás e procurar o caminho. Quando passo no sítio onde ele me apareceu, sustenho a respiração e passo em bicos de pés. Que raio, logo eu que nunca tive medo de cães.

 

Consegui passar e regressei ao último marco, e o que é estranho é que continuo sem perceber onde foi que me enganei. Mesmo que viesse com luz, tinha-me perdido!! Algo me está a escapar. Vou voltar atrás mais uma vez. Ah, outro peregrino perdido!! Afinal, 4 olhos vêem melhor que 2+2!! Vimos finalmente a razão do nosso engano, uma seta minúscula num poste indica o caminho a seguir. Estamos finalmente no trilho certo. Seguimos juntos trocando algumas experiências, mas depois de pararmos num café, ele segue mais cedo quando ainda vou a meio do meu pão.

Daqui até Melide não há muito mais a registar. O trajecto é bonito mas duro. À entrada da cidade entro numa mercearia para comprar fruta. Quando estou a escolher, passa na rua um homem dos seus 70 anos que mete conversa e me pergunta como está a correr, de onde venho, blablabla. Ele entra na loja (que eu venho mais tarde a descobrir que é dele) e depois de me deixar escolher e pagar a pêra, convida-me para um café. Dizem as regras da boa educação que não se recusa o que nos oferecem de coração, por isso aceitei. Ele leva-me para a parte de trás da loja (que é a casa dele) e faz-me um café e oferece-me um licor (xopito, como lhe chamou) enquanto falávamos de fado e da minha "pronúncia galega" - lol. Ainda me ofereceu uma das netas em casamento (a outra já é comprometida) mas tenho que a vir buscar de carro. A pé ela não vai!!! Grande Juanito :)

 

Despedi-me com a promessa de passar novamente, e pretendo cumprir.

Sigo viagem, paro na igreja local e quando saio tenho a necessidade de ir a uma panaderia. Preciso de um doce para abafar o xopito ;) - comprei biscoito tradicional que é bem bom!!

 

A partir daqui cruzo-me com o caminho Francês. Gente que nunca mais acaba. O percurso continua duro, com muitas subidas e descidas de primeira categoria. Chego a Arzúa e decido ficar por aqui. O albergue público é bonito e tem lugares livres. Agora é a rotina: tomar banho, lavar a roupa, descansar, jantar e deitar cedinho porque amanhã tenho mais caminho pela frente

 

 

TERÇA-FEIRA, 14 DE AGOSTO DE 2012

 

7h00 - só a esta hora é que tirei o rabo da cama, apesar do movimento na camarata ter começado bem mais cedo. Aliás, quando me levantei, já só estavam mais duas pessoas para além de mim!! Mas a pressa não era muita. Afinal de contas, são só 21 kms até Pedrouzo. Meia hora depois já estou a caminhar com o pequeno almoço tomado, no café ao lado do albergue. Está a chover. Uma chuva chata e peganhenta, que entranha até aos ossos. Pela primeira vez desde que faço os caminhos (e já vou no quarto), não trouxe impermeável, e pela primeira vez, foi necessário!!

Como se costuma dizer, o que não tem remédio, remediado está. Levo com ela na cabeça para refrescar as ideias :)

 

Da outra vez que aqui passei ao fazer o Caminho Francês nem me apercebi do quão agradável é este troço, feito no meio do bosque. Mas é duro! Muitas subidas e descidas bem íngremes.

 

Quando já estou a começar a arrotar à fome, eis que surge no caminho um bacano a vender fruta. Escolho aquele que é o meu fruto preferido e que muito raramente como: uma banana. Quanto é? - pergunto-lhe eu. Quanto quiseres dar, responde-me ele. Não faço a mínima ideia quanto é que isto vale digo-lhe eu. E ele novamente a rir-se: o que quiseres!

 

Se ele me tivesse dito que custava 0,50€ eu chamava-lhe espanhol ladrão, assim dei-lhe 1€ :D

 

Ele ficou todo contente e disse para tirar mais qualquer coisa, mas eu já estava satisfeito com a compra. Perguntou-me de onde era e lá ficamos à conversa. Ele é de Barcelona e segundo ele, os portugueses falam muito com "xises". Mais umas tretas sobre idiomas até que ele disse: conheço uma palavra portuguesa: trapalhada. Vocês usam essa palavra? Agora foi a minha vez de me rir ao responder-lhe "nem imaginas quantas vezes" :)

 

Depois perguntei-lhe o que andava a fazer tão longe de casa. Nada, disse-me ele com o ar mais natural deste mundo. Já sei porque nos demos bem: ele é mais vagabundo que eu :)

 

Isto está muito interessante mas eu tenho que seguir o caminho e vem aí mais clientela para ti. Xau-xau.

 

Logo adiante paro para comer um bocadillo de queijo, beber um sumo e tomar um café...e não resisti a pedir um donut para me dar energia ;)

Não sei que coisinha ruim me passou pela cabeça, mas o Albergue de Pedrouzo já ficou lá atrás e eu continuei a caminhar. Não sei se é o caminho a chamar por mim, ou se são simplesmente a Tarte e as Pedras de Santiago (lol), mas o que é certo é que as minha pernas recusam a obedecer-me e ao bom estilo de Forrest Gump, elas não param!

 

Tenho as cuecas todas molhadas. E não, não foi nenhum descontrolo urinário. Depois de umas tréguas à hora do almoço, a chuva voltou mas bem mais intensa. Até trovões e relâmpagos. Já pensei deitar os bordões fora. É que quando passei o Albergue pensei para mim mesmo "raios me partam se não chego ao Albergue do Monte Gozo". Será que eles me ouviram e vêm atrás de mim?!? Medo...

 

Dos raios já eu me livrei, mas a chuva cai sem piedade. Tenho que parar para comer qualquer coisa. Estou a caminhar há 8 horas quase ininterruptas e os meus pés estão a começar a ressentir-se. Aproveito para deixar uma palavra de elogio às minhas sapatilhas. As mais baratas que comprei até hoje para estas atividades, mas que ainda não me obrigaram a gastar nenhum penso. Só deviam era vir equipadas com uma sola Vibram. Tirando isso, five stars!!

 

Depois de comer mais um bocadillo e tomar um café, ponho pés às poças. É que parado e molhado, começo a enregelar. Por isso estugo ainda mais o passo.

 

Ah!! Que prazer. Depois de passar pelo Albergue de Monte Gozo fico com a fantástica sensação que o caminho é só meu. É que não há mais nenhum tolinho que arrisque a ir mais adiante hoje, por isso, sabe-me pela vida fazer estes últimos 5 kms sozinho. Ver peregrinos é agradável e trocam-se experiências, mas no Caminho Francês e principalmente nesta altura do ano, são tantos que torna-se impessoal e impossível de falar seja com quem for. Por isso estes últimos quilómetros sabem-me pela vida. Ainda por cima S. Pedro está a dar uma mãozinha, pois parou de chover. Petáculo :)

 

De todas as vezes que cheguei a Santiago, esta foi a que mais arrepios me provocou. E não estou a falar do frio que ainda sinto por ter a roupa molhada colada ao corpo. Mas foi especial. Razões pessoais. Pena é que a cidade tenha sido inundada. Estamos em Agosto e amanhã é feriado. Uma confusão pouco propícia a grandes reflexões :(

 

Depois de um momento a contemplar a Catedral vou buscar a Compostela. Gente até cá fora!! A esta hora...se fosse amanhã de manhã ia ser jeitoso. Entro na Catedral. A fila para dar o tradicional abraço ao Apóstolo faz curvas a perder de vista. Não obrigado. Já o abracei em alturas mais calmas é co que tenho para lhe dizer não precisa ser dito ao ouvido :)

 

Depois de um momento de reflexão dou uma volta às capelas e em particular aquela onde se deixam as mensagens. Depois saio e dou uma volta preguiçosa. Sem pressas. Depois vou até ao Albergue Seminário Menor ver se têm sítio. Arrumo as minhas tralhas e volto à cidade já sem o peso da mochila. Vou comprar as tradicionais Pedras, uns regalos, comer ao manolo (sem esquecer a Tarte de Santiago e o licor de ervas para me aquecer depois de um dia tão duro)

 

Reflexões? Ficam para amanhã. Depois do licor, já não fico em modos de mais nada a não ser dar com a minha cama no labirinto do albergue :)

 

Hasta mañana

 

 

QUARTA-FEIRA, 15 DE AGOSTO DE 2012

 

Apesar do cansaço acordo bastante cedo. Levanto-me sem pressas, tomo um banho, preparo as coisas e volto ao centro da cidade de mochila às costas. Está fresco, mas nem sinais da chuva de ontem. Pelo menos por agora. Vou-me passeando pelas ruas quase desertas a esta hora. É bom ter a cidade "só para mim". Só meia dúzia de peregrinos e alguns cidadãos locais é que deambulam aqui ou ali.

 

Aproveito a ausência de turistas e o sossego que isso proporciona para ir à Catedral sem tanto barulho, e até aproveito que não há fila para dar o tradicional abraço ao Jacobo. Afinal, não preciso de lhe dizer nada ao ouvido mas ele podia ficar zangado de eu vir até cá e não lhe dar o calduço habitual :)

 

Agora vou tomar o pequeno-almoço. Escolho uma esplanada onde está a bater um sol delicioso. Peço uma tostada (que eles insistem em querer encher com azeite ou manteiga mas que para mim tem que ser sem recheio, e um café solo largo. Enquanto isso escrevo as notas finais desta odisseia.

 

Por vezes desorientamo-nos ou perdemo-nos, como aconteceu comigo na segunda etapa. Mas eu sabia que dali por umas horas tudo estaria bem, tudo se resolveria. Nem que no limite eu tivesse que chamar um táxi, eu sabia que encontraria uma solução. Apenas porque era natural que assim fosse. Mas o que se iria passar nesse entretanto assustava um bocadinho.

 

Também na vida é assim. Lá mais à frente, mesmo a situação mais difícil que agora parece não ter solução, estará resolvida. Mas por vezes ficamos sem saber para onde nos mover. Por vezes precisamos de uma luz, que nos aponte a direcção correcta. E em geral, não podemos esperar que alguém a acenda por nós. Temos que ser nós a apontar. E todo o ser humano tem medo de escolher a direcção errada. Vou estudar medicina ou línguas? Vou emigrar ou tentar a minha sorte por cá? Vou estudar ou trabalhar? Vou comprar uma casa ou alugar? Vou comprar um fato ou umas calças de ganga? Tudo na vida é feito de escolhas. Umas mais fáceis, outras mais difíceis. Umas mais importantes, outras menos. Mas em todas elas, temos medo de não tomar a mais acertada. No entanto, pior do que errar, é não tomar nenhuma!

 

"O mais importante na vida não é a situação em que nos encontramos, mas a direcção para a qual nos movemos"

 

Nos caminhos, as setas amarelas indicam a direcção certa e a luz brilha bem lá ao fundo na Catedral, chamando e guiando todos os peregrinos. Na vida, cada um tem que encontrar a sua própria luz. Mas o importante mesmo, é que não fiquemos eternamente parados a pensar se aquela será a mais acertada.

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Domingo, 8 de Abril de 2012

Caminho Francês de Santiago - 30/03/2012 a 06/04/2012

Os Vagabundos Hélder e Paulo estão de volta.

 

Somos em boa verdade os únicos a fazer jus ao nome, ao sacrificar alguns dos nossos dias de férias para nos dedicarmos de corpo e alma ao ócio e à libertinagem :), tudo em prol desta actividade fantástica que é a caminhada, em comunhão com a natureza e com nós próprios.

 

Por caprichos da vida e por razões que nem o próprio Santiago poderá um dia explicar, contamos este ano com a participação de uma terceira vagabunda. No início desta empreitada, a Susana tratava-se de uma aspirante. No final, tenho a sensação que se trata já de uma ex-futura-vagabunda! Não que nos tenha deixado ficar mal. Até se aguentou bem à bronca. Fez bolhas, cansou-se, aguentou as piadas pesudo-machistas e lá chegou ao destino. Mas pelo caminho, lá foi tendo momentos de desânimo, e dizendo que sentia saudades de conversas de gajas e do conforto e mordomias que tem em casa!! Apesar de ter apelidado a experiência de muito positiva, tenho a nítida noção que não a voltaremos a ver por estas paragens ;)

 

Depois do caminho Português em 2010 e da Via da Prata em 2011, a vontade de palmilhar o mais badalado caminho com destino ao Jacob, era muita. Por um lado pela beleza que este caminho prometia, por outro, pelo facto de ser precisamente a mais mística de todos as vias. Foi por isso com grande entusiasmo que zarpamos para O Cebreiro no dia 30 de Março, quando o cuco ainda preguiçoso, tinha acabado de vir cantar pela 5ª vez nesse dia.

 

O ritual da preparação de um caminho, envolve muito mais que a simples decisão sobre levar um fato da Sacoor ou uma gabardine da Lion of Porsches. Conta muito mais  o peso que se leva no lombo. Como não temos a resistência de um Sherpa, é imprescindível a selecção de roupa leve, fácil de secar, quente ou fresca consoante se pretenda, e sobretudo em quantidade que não ultrapasse o estritamente necessário. Também o calçado merece todos os anos cuidados específicos, consoante a época do ano. Visto que esta caminhada se revestia de fortes probabilidades de S. Pedro nos agraciar com a queda de uns pingos de chuva, pareceu-nos essencial a utilização de calçado com Gore-Tex (publicidade a baixo custo). Após longas semanas de experimentações, quase a queimar a partida, ainda subsistiam grandes dúvidas sobre as melhores opções. Vai-se já entender porquê :) - mas uma coisa pode ficar desde já registada: o Paulo teve tantas saudades das suas Nike...

 

 

 

 

 

 

Imagens de O Cebreiro - localidade muito catita

 

Depois de estacionarmos o “coche”, como lhe chamam por estas bandas, iniciamos o percurso por volta das 11h. Este primeiro dia brinda-nos com paisagens encantadoras. Perto do Alto de San Roque, já o calor apertava, e o esforço da caminhada convidava-nos a despojar o corpo de alguns adereços, sobrecarregando um pouco mais o costado. Zona extremamente ventosa. A ponto de a própria estátua se ver aflita para segurar o chapéu. Por tradição, o almoço do primeiro dia é levado de casa, mas não varia muito relativamente ao menu dos restantes dias: pão, fruta, queijo e por vezes uma lambarice. Neste caso, foi apimentado após o almoço. Procuramos sempre que a paragem seja feita onde possamos tomar café. Quer dizer, qualquer coisa parecida com café. Por estas paragens tem que ser “sólo” e “corto”, mas mesmo assim é ruim…mas a bela da estalajadeira ofereceu-nos uma branquinha para acompanhar, que bebemos ao belo som da salsa. Tipicamente jacobeano!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando estávamos para zarpar, estava a chegar uma peregrina pela qual tínhamos passado no caminho, e à qual não auguramos grande fim: trazia umas traineiras nos pés a servir de botas!! Mais tarde, desconfiamos mesmo se não seriam arrastões, tal era o peso e a desconformidade das mesmas. A pobre vinha a arrastar os pés. Pudera, quando chegou ao local onde almoçamos, tirou-as e tinha os pés num mísero estado!!! Coitada, até tivemos pena dela. Mas claro, como bons peregrinos que somos, solidários com a dor dela, fartamo-nos de rir e gozar, ao ponto de termos tirado uma foto às escondidas às ditas botas. É que não é todos os dias que se vislumbram obras-primas daquelas, e podemos não conseguir mantê-las na memória para a eternidade :)

 

Durante a tarde, o cenário foi muito semelhante. Os temas de conversa foram rodando, entre assuntos mais intelectuais, até cretinices completas, que nos permitiram aliviar as mentes…e não só… Chegamos ao albergue de Triacastela ao final da tarde. Muito simpático. Ficamos os 3 numa camarata de 4 camas. Parecia um hotel de luxo, com quartos privativos. Tem umas portas à far-west muito jeitosas para partir narizes!! E um sistema de água nos banhos, que nunca tínhamos visto…de tão estupidamente mau que era. Pedimos a um japona com ar abichanado para nos tirar a foto da praxe, demos uma volta pelo vilarejo, visitamos o exterior da igreja, já que estava fechada, e comemos num snack-tasco simpático. Depois, toca a dormir, que se faz tarde.

 

 

 

Com a ideia que estávamos de facto num hotel de luxo, no dia seguinte levantamo-nos tarde e a más horas. De tal forma, que às 9h30 ainda estávamos a entrar no supermercado para fazer as compras da ração para o dia!!! O trajecto foi em tudo semelhante ao de ontem. Almoçamos num lugarejo onde passavam mais tractores do que carros. E mesmo assim, só quando colocávamos a cadeira no meio da estrada, para gozarmos uns raios de sol delicioso, enquanto tomávamos mais um daqueles cafés “solos” deliciosos :|…

 

 

 

Siga para Sarria. Mesmo à entrada da cidade, cruzamo-nos com o japona, que mais parecia um muçulmano, de tão tapado que ia. Com luvas e até polainas, era bizarro vê-lo assim vestido com o calor que fazia. Perguntamos-lhe pelos amigos dele. Disse-nos que estavam à espera dele em Pedrouzo!!! Lol. Ainda lhe tentamos dizer que isso ficava a cerca de 90 kms do sítio onde estávamos, mas ele estava decidido a ir ter com eles nesse mesmo dia. Quem somo nós para demover um japona das suas ideias? Deixá-lo ir. Até o empurramos, para lhe dar lanço. Sayonara…

 

 

E nós, directos para a farmácia. O Paulo e a Susana estavam com ameaças de bolhas…Depois do banho, da lavagem de roupa e das compras para o dia seguinte, fomos jantar. Estava um movimento tremendo na cidade. E já agora, no albergue também. Demos com uma espanholitas que faziam barulho suficiente para irritar uma preguiça. E para ajudar à festa, a camarata era grande, o que implica muita gente e muitos sussurros, muitos fechos a abrir e a fechar, etc, etc. Isto foi o que nós achamos na altura…

 

A manhã seguinte chegou carregada de uma neblina que enregelava até aos ossos. Assim se manteve durante quase toda a amanhã. Mas meus amigos, quando o sol consegui romper os últimos fiapos desse denso véu que nos envolvia, foi uma caloraça que não se podia. Mesmo à entrada de Portomarín, tem uma brutal escadaria, que depois da jornada fatigante que tínhamos tido, foi como fazer o caminho para o calvário. Mas a paisagem lá em cima valia a pena. Depois, lá no centro da cidadela, lá encontramos o albergue. Já fazia fila à entrada e começamos a prever que com o avançar dos dias, o ingresso nos albergues seria cada vez mais difícil.

 

Se o albergue de ontem era grande e movimentado (tínhamos achado nós, lembram-se?) o de hoje parecia uma colmeia…tudo ao molho e fé em…Deus. Lá está, afinal de contas, estamos a falar de peregrinos profundamente crentes…ou então não!! Passamos a tarde a preguiçar na praça. Parece um trava línguas. Ora experimentem lá dizer isso alto: preguiçar na praça. Se estiverem no trabalho não o façam. O patrão pode não entender esse acesso inesperado de loucura. Força, agora sigam para: esse acesso :). Também tentamos ir à farmácia, mas a única existente na vila estava fechada. Disseram-nos para tocar na campainha ao lado, porque a dona da farmácia morava lá. Mas quando lhe dissemos que era para comprar uns míseros pensos para as bolhas, ela mandou-nos lamber sabão. Só que em galego! Que é mais ou menos assim: bán másé lambieri saboni

 

No dia seguinte começamos a etapa cedinho. O nevoeiro voltou a ser presença assídua, tal como a estrada nacional. Daqui em diante começa-se a perder o tipo de traçado mais rural e começamos a ver mais a estrada nacional, e a ter inclusive que a atravessar por diversas vezes. Mas continuamos a ter troços muito bonitos. E não estou a falar de coibes… Tivemos o prazer de nos cruzarmos mais uma vez com um peregrino que se fazia notar, pelo facto de por vezes o encontrarmos sentado a tocar umas melodias na sua flauta. Foi talvez uma das personagens mais marcantes de toda esta peregrinação. Chegados a Palas de Rei, ficamos numa camarata simpática, com menos gente que as anteriores, o que nos permitiria vir a descansar melhor. Depois das compras e por uma volta rápida pela vila, na qual finalmente encontramos uma ifreja aberta, lanchamos e jantamos num restaurante simpático e depois fomos para o ninho, que cá fora faz um calor soviético que eu vou dizer-vos uma coisa: brrrr

 

Melhor ou pior, os penantes foram-se aguentando. O Paulo há muito já tinha rebentado as bolhas que lhe surgiram logo ao segundo dia e a Susana, começou hoje a sentir o que é uma bolha a sério. Sem ser daquelas causadas por sapatos de gajas com preços pornográficos, que só se usam para ir a casamentos e depois não servem para mais nada. Estas são “as” bolhas de peregrino. Mas lá se foi aguentando. O dia hoje prometia molho vindo lá de cima, das nuvens que parecem tão fofinhas, mas quando lançam a água que têm a mais no seu interior são grandes inimigas dos caminheiros. Nestas coisas, vamos sempre muito prevenidos, mas o melhor mesmo é não termos que usar nada de impermeáveis e afins. Aquando da paragem para a pausa matinal, tinha lá uma placa com indicações em Alemão. Nesse preciso momento estavam a passar duas peregrinas que pelo seu linguajar nos pareciam ser dessas bandas. Tentamos meter conversa, mas elas logo se apressaram a informar que eram Austríacas. Mas não se safaram de nos aturar à mesma J. Eram muito simpáticas e informaram-nos que planeavam vir a Portugal ainda este ano. Trocamos logo contactos e foi amizade à primeira vista. Mesmo ao arrancarmos, tivemos que vestir os impermeáveis. Mas logo de seguida, voltamos a tira-los. Foi só um ameaço…almoçamos próximo de um café cujo tecto estava repleto de bonés. Estive quase para dizer “chapéus há muitos seu palerma”. Mas o homem podia não conhecer o grande Vasco Santana, e ainda me atirava com um pastelinho de bacalhau às fuças e depois ia ser o bom e o bonito. Sim, que eu nesta altura já não tinha forças para fugir :)

 

 

Chegamos a Arzua estafados, mas a nossa peregrinação desse dia ainda estava longe do fim…primeiro, foi a dificuldade em encontrar albergue que nos albergasse. Tudo cheio. Só à 4ª tentativa é que tivemos sorte. E num albergue privado. Depois…bem, depois é melhor passar à frente, directamente para o dia seguinte…muito cansaço, muita bolha, muita hormona descontrolada…

 

 

O percurso até Pedrouzo é muito calmo. Sem grandes motivos de aborrecimento nem de euforias. Ao chegarmos ao albergue deparamo-nos com uma fila de meia hora para fazer o registo. As camaratas são tamanho XXL e as condições são $%&#?!$. Enfim. Somos peregrinos, por isso está tudo bem. Voltamos a encontrar as nossas amigas Austríacas e lá estiveram a beber umas cañas enquanto jantávamos.

 

No dia da última etapa tiramos o rabinho da cama às 5h e quando começamos a caminhar estava escuro como breu. Em muitos troços tivemos que ir de lanterna acesa. Ou melhor, tivemos que ir a dar ao zarelho, porque a lanterna é daquelas sem pilhas. Nós somos muito ecológicos… A entrada em Santiago de Compostela cidade, é sempre uma grande confusão e perdemos quase a mística do caminho. Mas depois, à medida que nos aproximamos do centro, ela volta com toda a força e a emoção toma conta de cada um de forma diferente, mas a intensidade parece ser um elo comum. Depois do ritual do costume (chamadas para os mais próximos, abraços, fotos, oficina do peregrino para recolher a Compostela…) lá fomos para a catedral para assistir à missa. Mas pregaram-nos uma grande partida. Como era 5ª feira Santa, a eucaristia foi diferente e foi “interrompida” a meio para quem se quisesse confessar…no comments…

 

Fomos almoçar ao restaurante do grande Manolo, que a propósito não se chama Manolo!?!, com as nossas amigas Tina e Verónika (as Austríacas) e depois fomos para o Seminário Menor. Descansamos, tomamos banho, e voltamos à cidade para comprar as tradicionais pedras de Santiago e para jantarmos no Manolo. Pelo caminho ainda vimos a procissão típica desta quadra eucarística. Só os três. A Verónika e a Tina foram lá ter depois e estivemos a emborcar umas cervejas e umas bebidinhas que elas quiseram experimentar. Ele foi licor de ervas, aguardente e sei lá mais o quê. O que sei é que nos passou o frio e dormimos que nem uns anjos :)

 

 

Na manhã seguinte, botas ao caminho até à estação das camionetas, onde apanhamos a carreira para O Cebreiro. Quando lá chegamos nevava com fartura. Ainda bem que não começamos hoje o caminho!!! De coche até casa. Para este ano está feito. Para o ano há mais. Até lá.

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Domingo, 27 de Novembro de 2011

Linha do Corgo da Régua a Chaves 5 a 7 Outubro 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Via da Prata - Santiago de Compostela 23 a 29 Junho 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Linha do Douro 21 a 23 Outubro 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Rota Freixa da Misarela - 23 Abril 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sábado, 7 de Agosto de 2010

Caminho Português Santiago 1 a 5 Agosto 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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"faz-se caminho caminhando"

.normas de conduta

1. seguir somente pelos trilhos sinalizados 2. cuidado com o gado, por norma não gosta da aproximação de estranhos 3. evitar barulhos e atitudes que perturbem a paz local 4. observar a fauna à distância 5. não danificar a flora 6. não abandonar o lixo, levando-o até um local onde exista serviço de recolha 7. fechar cancelas e portelos 8. respeitar a propriedade privada 9. não fazer lume 10. ser afável com os habitantes locais

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