A Linha Ferroviária do Sabor que ligava a estação do Pocinho (Linha do Douro) a Duas Igrejas, foi construída de forma faseada e, o seu longo atraso na conclusão, ditou, por falta de verbas, que nunca chegasse a Miranda do Douro.
A Linha do Sabor possui a maior rampa ferroviária contínua em Portugal, sendo que nos 12 km que distam entre a estação do Pocinho e de Torre de Moncorvo que, se vencem em 280 metros de desnível, num traçado sinuoso de rara beleza, era necessário a meio do percurso realizar uma paragem técnica na denominada "estação da Grincha", para que as locomotivas a vapor pudessem recuperar a pressão e continuar a longa subida. De Torre de Moncorvo até Felgar a rampa continuava, vencendo-se em 13 km 260 metros de altitude, o que prefaz uma rampa contínua de 25 km, necessário para que os comboios subissem o Douro, contornassem a Serra do Reboredo, e pudessem entrar no planalto mirandês.
A abertura da Linha do Sabor foi realizada da seguinte forma:
Pocinho - Carviçais - 17 Setembro 1911
Carviçais - Lagoaça - 06 Julho 1927
Lagoaça - Mogadouro - 01 Junho 1930
Mogadouro - Duas Igrejas - 22 Maio 1938
Torre de Moncorvo foi de todas as quatro sedes de concelho que a linha atravessa, a única a ter estação no próprio povoado. Freixo de Espada a Cinta, Mogadouro e Miiranda do Douro tinham as respectivas estações longe do centro, e que em último caso condenou a longo prazo a linha ao declínio da sua procura. Acelerado pelo despovoamento que a emigração ditou na segunda metade do século XX, o desinvestimento na via férrea teve o seu início. O material traccionado a vapor durou até ao seu encerramento, tanto para os comboios de passageiros, como de mercadorias e mistos. Para os passageiros surgiu ainda uma pequeníssima automotora fruto de um projecto nacional, que tinha a carroçaria de autocarro e era impulsionada por um motor a gasolina. O material anacrónico começou a ser substituído gradualmente por circulações rodoviárias, deixando nos últimos anos de exploração ferroviária apenas uma circulação de comboios em cada sentido, que fizesse integralmente os 105 km do Pocinho a Duas Igrejas, e duas que cumprissem apenas o Troço Pocinho - Mogadouro.
A 1 de Agosto de 1988 estava tudo acabado na Linha do Sabor.
A Grande Rota que se pretende realizar entre 30 de Setembro e 02 de Outubro de 2009 é da seguinte forma:
Duas Igrejas - Mogadouro - 32,8 km
Mogadouro - Freixo de Espada a Cinta - 30,3 km
Freixo de Espada a Cinta - Torre de Moncorvo - 30 km
Esta rota era já um objectivo há muito perseguido pelo grupo. No entanto, devido à extensão anunciada no prospecto, estávamos a aguardar por dias compridos para a levar a cabo. Assim, no dia 25/07/2009, lá se agendou, com as dificuldades de sincronização que estas situações sempre trazem. Uns de férias, outros com excesso de trabalho antes de irem de férias, outros com excesso de trabalho depois de férias, outros lesionados… Enfim, os únicos que conseguiram conciliar os vários afazeres, foram os vagabundos Paulo e Hélder.
Começamos com uma vista muito agradável, logo na barragem, que faz reflectir um lago de calma. Embrenhando-nos no percurso, encontramos diferentes tipos de caminhos, ora mais largos, ora mais apertados, a ponto de por vezes termos mesmo que desbravar mato para podermos passar. As paisagens vão sendo agradáveis, fruto da imensidão de território que se alberga à vista desarmada.
Um dos pontos negativos a assinalar, é a notória presença assídua de veículos motorizados por estas paragens. Nota-se bem pelos sulcos abertos na terra, em alguns locais, suficientes para se enfiar uma perna inteira. Num dia quente como este se apresentou, nunca esperamos ter que nos enterrar em lama e água até aos tornozelos, mas a verdade é que por mais de uma vez nos vimos nessa situação.
Chegados ao ponto mais alto, não sem antes nos enganarmos e termos que retroceder, por mais que uma vez, temos uma paisagem sublime. Junto ao marco geodésico, que marca precisamente a cota dos 820 metros, estão a investir em força nas energias renováveis.
Encontrar a marca seguinte não se revelou fácil, mas por fim lá demos com ela, num estradão, construído para apoio à construção de todas as eólicas aqui presentes. Passamos então à Lage Branca e descemos para Luílhas, onde decidimos almoçar. Aqui, tivemos o prazer de encontrar um companheiro destas andanças (http://trilhoseazimutes.com), que nos deu o prazer da sua companhia da parte da tarde.
Em direcção a Queimadela, encontramos um moinho abandonado, o que é uma pena, e cruzamo-nos com duas cobras, que impunham respeito.
Andamos um pouco perdidos nesta fase do trajecto, fruto da deficiente marcação e nem mesmo o GPS do nosso companheiro de jornada, nos conseguiu orientar. Já próximos da barragem, cruzamos o parque, que estava com muita afluência. Mas não é de admirar, porque a temperatura a isso convidava e as condições, são muito boas, com praias fluviais, locais de piquenique, locais para jogos, etc.
Depois de muita discussão em torno da data para realizar esta actividade, lá ficou decidido que rumaríamos até è extremidade Norte de Portugal, no dia 10 de Junho de 2009, um dia depois da celebração do feriado municipal. Assim, bem cedo, lá nos reunimos, com esperança que o tempo, que se apresentava nessa manhã cinzento e húmido, melhorasse antes do início da caminhada. Cláudia, Nuno, Mário, Paulo e Hélder. Eis os vagabundos que se dispuseram a meter pés e bastões ao caminho. Depois de uma passagem rápida de carro pelo centro, onde se destaca o castelo imponente e a estátua do navegador que descobriu a costa da Califórnia, João Rodrigues Cabrilho, natural desta terra, lá fomos tomar o pingo da praxe. De seguida, rumamos a Meixedo, local previamente escolhido para deixarmos uma das viaturas e para pernoitarmos. De seguida, rumamos ao local que nos tinham indicado como sendo o inicio da trajecto. No entanto, não foi pacífico encontra-lo. Apesar dos esforços prévios de contactarmos as autoridades locais no sentido de garantirmos que não haveriam surpresas relativamente à marcação do percurso, a verdade é que chegados ao local que nos haviam indicado, não encontramos os pontos referenciados. Após alguns telefonemas, lá iniciamos um troço por estrada, que nos levaria, já em terras espanholas, ao ponto de arranque desta grande rota.
Infelizmente as melhorias esperadas das condições meteorológicas ainda não se faziam sentir e uma chuva miudinha teimava em cair, obrigando-nos a avançar de impermeáveis vestidos. Voltamos a entrar em terras portuguesas e por esta altura, caminhávamos num trajecto de vegetação bastante densa e não raras vezes, enterrados em água e lama quase até aos tornozelos. As dificuldades do percurso, eram no entanto atenuadas pela belíssima paisagem e pela agradável sensação de distanciamento da confusão das grandes cidades.
Mesmo os elementos marcadamente humanos por onde íamos passando, aldeias e construções diversas, nos davam uma sensação de paz e tranquilidade imensa. O granito, foi a pedra mais utilizada por estas paragens para a construção das casas e igrejas. Também ficou claro o tipo de vida e actividade económica que abundavam nesta região. Agricultura e criação animal foram durante muito tempo o sustento destas populações e ainda hoje, constituem a grande fonte de riqueza, da cada vez menos vasta população das pequenas povoações que fomos cruzando.
De forma alternada, a chuva e pequenos raios de sol foram-nos acompanhando, até à hora do almoço, em Padornelos. Durante todo este período, tivemos algumas hesitações sobre qual o trajecto correcto, pois em muitos casos a marcação era deficiente. Em determinada parte do traçado, o percurso desta grande rota é comum ao de uma pequena rota.
A meio da tarde, voltamos a passar pelo centro de Montalegre, desta vez a pé, que é como deve ser. Foi mais um período em que andamos perdidos, pois os sinais aqui são simplesmente inexistentes. Pelo que viemos a saber, “foram retirados por causa de uma actividade realizada na véspera”!?
Após deixarmos o centro de Montalegre, voltamos a embrenhar-nos no tipo de paisagem que vínhamos encontrando da parte da manhã e a jornada foi prosseguindo, dentro de um espírito de camaradagem e boa disposição que costumam caracterizar estas nossas actividades. E assim fomos passando por Codeçoso, Vale das Corças até chegarmos a Meixedo.
À semelhança das demais aldeias por onde fomos passando, trata-se de um “lugar que parou no tempo”, com as suas casas em pedra e o chamado largo da povoação, com chafariz, bebedouro, varandas e corte de boi com sino. Existe também um forno comunitário, todo feito em pedra. É Uma terra que cheira a século passado, com os animais e os tractores a cruzarem-se pelas ruas, cobertas dos excrementos das vacas e dos bois. Mas será que algum de nós se importa com isso? Claro que não. Encontrar o Portugal de outros tempos, é uma das coisas bonitas deste tipo de actividade.
Procuramos o Sr. Paulo Barros, elemento do executivo da Junta de Freguesia local, que muito gentilmente se tinha comprometido a arranjar-nos acomodação. O local escolhido foi a antiga casa paroquial, actualmente desabitada, uma vez que o pároco serve outras freguesias, tendo-se mudado por isso para Montalegre. A casa, que fica mesmo ao lado da Igreja, dispõe de um quarto, um wc e uma cozinha, que foi o local escolhido para estendermos os sacos-cama.
Após um banho retemperador, lá nos dirigimos de carro ao centro de Montalegre, para a refeição quente da noite. O local é bastante agradável e acolhedor, sendo que também a qualidade da carne é de referenciar. Depois, ala para os sacos-cama, para descansar os músculos. O espírito, esse, já se encontra bem melhor, depois de um dia em comunhão com a tranquilidade natural destas actividades.
Depois de tudo arrumado, as chaves entregues e os agradecimentos feitos, lá iniciamos mais uma jornada. Felizmente o tempo estava bem melhor e pudemos deixar de lado os impermeáveis e quase nos sentimos tentados a usar calções. Obviamente que neste tipo de actividades estamos sujeitos aos caprichos do tempo e venha o que vier, é bem-vindo. Mas obviamente desfruta-se mais das paisagens quando o céu está claro e o astro rei brilha lá em cima. O trajecto continuava a ser agradável e há a referenciar a travessia de uma ponte de pedras, sobre o leito do rio. Assim fomos seguindo pela Encosta do Piornal.
Chegados a Gralhas, decidimos parar para almoçar e fizemo-lo, mesmo em frente ao nº10. Se fosse em Downing Street, Inglaterra, ainda nos arriscávamos a dar de caras com o primeiro-ministro britânico, assim, só vimos os bois a passar.
Depois do almoço, fomos até um café, na busca de saciar o vício da cafeína e aqui encontramos uma bebida que era nova para todos nós e que tivemos de provar: kir!
De volta ao percurso, encontramos os primeiros sinais nas imediações da Igreja, mas daí em diante, nunca mais vimos qualquer sinalização e perdemo-nos por completo da rota.
Assim, a única hipótese que nos restou, foi seguir por estrada, na direcção que apontava o trajecto do panfleto. Foi assim que passamos ao largo de Sto. André e chegamos a Vilar de Perdizes. À entrada desta famosa localidade, encontramos uma escultura de uma perdiz, junto à qual nos fotografamos em diversas poses.
Daqui em diante, o trajecto manda-nos seguir até Soutelinho da Raia, local onde havíamos estacionado o carro nessa manhã. No entanto, como continuávamos sem rasto do traçado do percurso, lá tivemos que continuar por estrada, sempre em busca dos sinais, que teimavam em não aparecer.
À chegada ao carro, o Mário, que já se vinha ressentindo do joelho, decidiu ficar por ali mesmo, enquanto os restantes fizeram a estirada final, para chegar mesmo à fronteira com Espanha, local assinalado com um marco, mesmo à entrada da ponte.
Foi neste troço final, que voltamos a encontrar as marcações da rota! Depois disto, voltamos para a beira do Mário, para o lanche final.
Para finalizar, não podia ter faltado a cervejinha e os salgadinhos típicos destas actividades, num café local. Depois, ala para casa que se faz tarde, e até mesmo a natureza parecia indicar isso mesmo…
Pedimos antes de mais desculpas a quem sempre nos acompanhou ao longo de todas as jornadas pelo atraso na actualização do blog, que desta vez não se deve a falta de meios (wi-fi), mas ao facto de termos aproveitado ao máximo para confraternizar com os nossos amigos italianos e a sul africana que acabamos por encontrar na missa do peregrino.
Esta última etapa fizemo-la acompanhados pelos italianos, o que nos fez abrandar o ritmo habitual já que o Gianluca primeiro (baptizado desta forma para os distinguirmos) estava muito fatigado e indisposto, tendo sido percorrida “piano piano” (lento lento).
Partindo do albergue de Téo, o caminho é feito por entre bosques, sendo a parte mais interessante, a que confina com o Rio Tinto.
Prosseguimos e em determinada altura, face à inexistência de marcações, acabamos por seguir uma seta feita com cascas de eucalipto. Concerteza alguma partida, já que nos encaminhava no sentido oposto ao pretendido, tendo-nos valido a ajuda de um idoso que nos fez corrigir o rumo.
À passagem de uma ponte que atravessa a autopista, vislumbramos ao longe, por entre a névoa, as torres da Catedral, embora distássemos cerca de 5 kms de Santiago.
Lá fomos tentando algumas fotos, mas o resultado não foi o melhor.
A entrada na cidade é o derradeiro teste às forças do peregrino dado que é necessário vencer uma árdua e prolongada subida.
Entretanto penetramos na apertada malha labiríntica medieval, começando a ver-se em alguns pontos as cúpulas da Catedral, que ora aparecem ora se escondem.
Como previsto, chegamos bastante cedo, o que nos permitiu ir primeiro à oficina do Peregrino, carimbar as credenciar e obter a desejada Compostela. Ainda fomos a tempo de facultar os nossos nomes e origens para serem pronunciados durante a eucaristia celebrada em homenagem aos peregrinos.
De seguida dirigimo-nos para a Praça do Obradoiro, onde pisamos a pedra que simboliza o fim da peregrinação e entramos na catedral pelo Pórtico da Glória, local por onde devem entrar os pergrinos que concluem o Caminho Português.
O que se passou a partir daqui é muito intimo e pessoal e não é fácil transcrevê-lo para um texto, não por escassez de palavras, mas porque as emoções transcendem o nosso vocabulário.
É impressionante a diferença de sentimentos entre uma visita turística, como já havíamos feito e a conclusão de uma longa caminhada, com chuva, sol, muito frio e muito calor, dores, sede, bolhas nos pés e muitos quilómetros percorridos, o que de facto nos purifica a alma e aumenta a nossa capacidade de captação de energias.
Em resumo, a entrada na Catedral permitiu-nos sentir toda a energia que emana deste local, carregada por infinitos peregrinos durante séculos, com um forte e agradável arrepio que nos percorria todo o corpo…
É indescritível e tem mesmo que ser vivido na primeira pessoa.
Foi muito importante para nós o abraço ao Apóstolo e a visita ao seu túmulo, mas o mais importante foi de facto reconhecermos que ao longo da nossa vida, tal como nesta caminhada, carregamos muitas coisas que não são necessárias e das quais normalmente não prescindimos. Podemos de facto tornar as nossas vidas muito mais fáceis…
Após a missa do peregrino, ao que se seguiu o almoço, dirigimo-nos para o Seminário Menor, situado no alta de uma colina, com uma vista fantástica sobre o centro histórico de Santiago de Compostela.
Suseya!
10 de Abril de 2009, um dos mais importantes feriados religiosos, a sexta-feira Santa. É também um dia tradicional de actividades de vagabundagem! Infelizmente, só o Paulo e o Hélder puderam desfrutar desta oportunidade. O dia começou farrusco, com as nuvens a marcarem presença. Inclusive, tivemos alguma chuva a acompanhar-nos em parte do percurso. No entanto, outros momentos houve, em que o sol e o calor também deram um ar da sua graça.
Este é um percurso circular, com uma extensão total de 16 Km. O início é junto à Igreja de Canelas, mas optamos por faze-lo no sentido contrário ao indicado no prospecto. Esta parte do trajecto é comum à GR28 e assim se mantém até às proximidades da localidade de Vau. Uma boa parte deste troço é feito à beira do rio Paiva, o que o torna muito aprazível. Em alguns locais, tivemos que “forçar” a passagem, pois a vegetação instalou-se por completo no trilho. Também o recente abate de árvores dificultou em muito a nossa jornada, porque estas se encontravam agora no meio do caminho.
Mantendo o rio como companhia, ora mais perto, ora mais longe, ora tendo mesmo que cruzar pequenos afluentes, ora admirando pequenas cascatas, lá fomos avançando, em direcção ao próximo ponto de interesse.
Tivemos que fazer um pequeno desvio da rota, mas valeu a pena. Viemos prevenidos de casa com uma lanterna mesmo para este fim: visitar a mina do pereiro. Não que lá dentro se consiga vislumbrar grande coisa (sobretudo com as nossas pequenas lanternas de amadores), mas é sempre uma experiencia esmagadora. Não só pelo peso da terra que sentimos por cima de nós, mas sobretudo por pensar nas almas que durante séculos, sem grandes meios tecnológicos ou de segurança, tiveram que viver enfiados nestes buracos. Estar 15 minutos lá dentro, é uma experiência engraçada, mas trabalhar horas a fio… deve ser torturante! A entrada é estreita e baixa e à medida que fomos avançando, foi-se tornando ainda mais baixa, obrigando-nos a caminhar completamente curvados e a dar mesmo, aqui e ali, pequenas pancadas com as mochilas ou mesmo com a cabeça, no tecto. A escuridão adensa-se rapidamente, ao ponto de ao fim de meia dúzia de paços, já não se ver um palmo adiante do nariz! Escuro como breu. Bem lá no fundo, existem umas galerias, algumas das quais vedadas para evitar acidentes. Sem sermos grandes especialistas na matéria, estivemos a lançar algumas teorias sobre como decorreriam as escavações e a vida na mina. Até que nos fartamos e voltamos para trás. Foi bom rever o nosso amigo Sol.
Regressados ao trilho, um pouco adiante estacamos com uma paisagem simplesmente soberba. O rio forma um cotovelo com a montanha a trepar por ali acima. A paisagem é fabulosa e até se sente receio de falar, não vá abafarmos o ruído que o rio faz lá bem ao fundo, esmagando-nos com tanta grandeza. Não fosse por mais nada, valia a pena fazer este trilho só para poder desfrutar deste momento.
Paramos para a merenda em Vilarinho. Como o tempo estava incerto, procuramos um abrigo. O melhor que conseguimos encontrar, foi uma paragem de autocarro, feita toda em pedra, típica desta região. E ainda bem que o fizemos, pois enquanto trincávamos uma bucha, choveu mesmo.
Com a mochila mais leve e a barriga mais pesada, lá voltamos a meter as botas ao caminho. O ponto de referência seguinte foi o Centro de Interpretação Geológica de Canelas (CIGC), que infelizmente se encontrava fechado.
Daí, seguimos até Aldeia de Cima e chegamos novamente ao ponto de partida, que assim se transformou em ponto de finalização.
Uma vez que tínhamos tomado a decisão de última hora de ganhar alguma distância de forma a podermos chegar a Santiago antes do meio-dia de 5ª feira, hora a que é celebrada a missa do peregrino, saímos do hotel por volta das 7H30, já que se impunha uma estirada até ao Albergue de Teo.
Com o pequeno almoço já tomado, iniciamos a nossa jornada atravessando a ponte medieval sobre o Rio Bermaña e ao cabo de alguns quilómetros, atravessamos o vale desse rio por entre prados e bosques, que com a névoa da manhã possui um encanto especial.
Chegados ao povoado de Santa Mariña de Carracedo, aproveitamos para tomar o café da manhã e carimbar a credencial. Entabulamos conversa com a proprietária do estabelecimento, que nos descreveu os peregrinos que por lá haviam passado no dia anterior, já que hoje éramos os primeiros.
O Caminho segue por uma zona totalmente rural, com arruamentos muito estreitos, vislumbrando-se inúmeros corvos que aproveitavam as sementeiras recentemente efectuadas para se alimentarem.
Já no coração do povoado, observamos um “pequeno monumento”, constituído por um velho bordão, respectiva cabaça, sendo a rolha da mesma feita da massaroca de uma espiga de milho e respectiva vieira. Estes apetrechos contrastam com os modernos equipamentos que trazemos.
Para nossa satisfação, o percurso volta a efectuar-se em zona verde, na vertente do Rio Valga.
Já próximo de Padrón, mais precisamente em Pontecesures, onde atravessamos a ponte sobre o Rio Ula. O contraste desnecessário de uma enorme fábrica de lacticínios localizada numa das suas margens, retira a beleza e o enquadramento idealizado por quem instalou um miradouro precisamente para tal cenário.
Felizmente, a montante da ponte tal não se passa, permitindo-nos desfrutar de uma interessante vista sobre o largo leito do rio no ponto de confluência e a montanha mais ao fundo.
Segundo a lenda, foi por este rio que subiu a barca com o corpo de Santiago, para aportar em Padrón.
Infelizmente não conseguimos entrar na Igreja de Santiago, onde está o padrão onde foi amarrada a barca do Apóstolo e que deu o nome à cidade.
Aproveitamos para almoçar algo ligeiro em Padrón e seguimos em direcção a Teo.
Passada Iria Flavia, caminhamos sob um sol abrasador, que tornou a restante etapa um pouco penosa.
Na fonte situado junto ao Santuário da Senhora da Escravitude, aproveitamos para nos refrescarmos e atestarmos as nossas garrafas. Tentamos também nesta igreja entrar mas, à semelhança das restantes, encontrava-se fechada.
O restante percurso por estradões e atalhos lá chegamos a Faramello, donde desviamos do caminho para alcançarmos o Albergue de Teo. Dirigimo-nos ao café local para obter a chave e qual não é o nosso espanto, cerca de 30 minutos depois, quando regávamos uns belos amendoins com umas refrescantes cervejas, chegam os nossos companheiros italianos, que haviam alterado os seus planos iniciais, tendo também eles pernoitado em Caldas de Reis.
Estes presentearam-nos com um belo prato italiano, de spagueti com atum, que estranhamente até para mim (Nuno), que abomino atum, reconheço que estava agradavelmente comestível...
Ultreya!
Refeitos por uma noite bem dormida e bem aproveitada dada a boa vontade dos voluntários responsáveis pelo Albergue, todos os peregrinos acordaram por volta das 8H30 e nós não fomos excepção.
Como ontem não conseguimos actualizar devidamente este blog, dirigimo-nos para o café da estação ferroviária, onde ontem já havíamos estado e curiosamente, fomos servidos por um português e mais curioso ainda ter sido nosso vizinho em Vila Chã. O mundo é mesmo pequeno…
Por isso, começamos a caminhar por volta das 11H00.
Depois da visita à Igreja da Virgem Peregrina, uma das maiores referências do Caminho Português, por falta de sinalização, acabamos por demorar um pouco mais a sair do centro de Pontevedra, que é digno de visita bem mais demorada.
Abaixo registamos além da Igreja da Virgem Peregrina, a de S. Francisco e a Ponte Milenar do Burgo, onde o Rio Lérez desagua na Ria de Pontevedra.
Caminhamos paralelamente ao Rio Gândara, pensando a Cláudia ter andado tanto para chegar a casa dos pais.
Segue-se a Igreja de Santa Maria de Alba, junto à qual existe uma estátua que homenageia os peregrinos.
Atravessar o bosque que conduz a S. Mauro deu-nos bastante prazer e o facto do caminho estar completamente inundado, fez-nos reconhecer da importância de trazer calçado impermeável, que o digam uns peregrinos espanhóis, que efectuaram essa parte do percurso quais “elefantes saltando suavemente de nenúfar em nenúfar.
Depois do almoço em S. Mauro, caminhamos sobre um sol abrasador que, agravado pelas parcas fontes existentes, acabaram por tornar o restante percurso menos agradável. A saída tardia para iniciarmos a caminhada acabou por se revelar muito fatigante.
Já em Briallos, observamos a indicação do Albergue, onde nos desviamos para carimbar as credenciais e ficamos a saber, que até esse momento, apenas haviam chegado três peregrinos.
Continuamos até Caldas De Reis, onde existe uma estância termal, com um agradável bar com esplanada e uns magníficos gelados, que repuseram o dobro das energias gastas.
Procuramos o Hotel que nos havia sido sugerido por um elemento da protecção civil, onde estamos a escrever e que se revelou uma excelente escolha tendo em conta o binómio qualidade/preço.
Escusado será dizer que aproveitamos para um bom banho de banheira, encorajando-nos a pôr a escrita em dia (do blog claro!).
Ultreya!
Hoje, por volta das 5H00 da madrugada, fomos acordados abruptamente pelo grupo de portugueses, que pretendia ganhar tempo e atingir um ponto adiante, incomodando todos os peregrinos à sua volta.
Entretanto, chegou a hora de preparar a saída, directa para o café situado mesmo em frente ao albergue, começando a caminhada pelas 8H20.
A primeira fase do percurso é efectuada pelos subúrbios da cidade, onde encontramos, aqui e ali, entre prédios, alguns espigueiros, que se destacam no meios das recentes construções.
Entretanto, subimos em direcção ao Alto da Lomba, onde a vista é estupenda para a Ria de Vigo.
Passada a mancha florestal, encaminhamo-nos para Arcade, onde carimbamos a credendial no posto da Guardia Civil.
Seguiu-se Ponte Sampaio, com a sua ponte medieval, que atravessa o Rio Verdugo, onde, de acordo com o guia, ocorreu uma das mais sangrentas batalhas na campanha de 1809 contra as divisões de Napoleão, que se dirigiam para Portugal. Foi tal a ferocidade que ainda hoje a população local põe aos cães o nome dos generais franceses.
Atravessada a dita ponte, sentimos no ar um perfume a pão acabado de cozer a lenha, pelo que nos apressamos a saber do seu paradeiro, onde acabamos por adquirir um belo pão de mistura acabado de sair do forno, o que embelezou ainda mais a pitoresca aldeia piscatória.
Voltamos a entrar numa mancha verde que nos conduziu ao Alto da Canicouva e a uma refrescante fonte, onde aproveitamos para atestar as nossas garrafas e conversar um pouco com um idoso, que como viemos a saber, contava quantos peregrinos passavam por ali em cada dia.
A Capela de Santa Marta, à semelhança de outras, é mais um local de culto que se encontra ao longo do Caminho, dando mais sentido espiritual ao peregrino que sendo cristão, aproveita para rezar e meditar sobre o sentido da sua senda.
Em Tomeza observamos novamente uma demonstração de apoio aos peregrinos pela população local, espelhada em várias estátuas e monumentos, como os que retratamos.
Precisamente em frente ao Albergue, encontra-se um café e restaurante, onde encontramos os nossos dois amigos italianos, chamados ambos Gianluca e a sul africana Pascal, que acabou por optar seguir um pouco mais adiante após o almoço, bastante regado tendo em conta o aniversário de um dos italianos. Parabéns – Compleanno.
Ultreya!
Pedimos muitas desculpas aos nossos seguidores, mas a razão do atraso não tem a ver com cansaço, mas com indisponibilidade de internet, já que a generalidade das wi-fi zones, apenas o são nos vidros, dentro dos estabelecimentos não existe.
A net móvel que trazemos não funciona em Espanha, mas o problema está para já resolvido...
Entremos no que interessa:
Já pelas normas dos albergues espanhóis, às 22H00 da noite (hora espanhola), estávamos a entrar nos sacos cama, esperando-se uma energizante noite de sono, embora temêssemos que as festividades em honra de S. Telmo nos pudessem incomodar.
Uma vez deitados, verificamos que o ruído das festividades mal se ouvia, evidenciando-se o ressonar profundo de um dos peregrinos, por vezes interrompido por um seu parceiro que o tentava silenciar. Só resultava durante uns breves 20 segundos.
Já ambientados com a melodia, fomos surpreendidos por o remanescente da festa, ou seja, um grupo de jovens movidos certamente a álcool ou a outra substância catalítica de emoções, que se instalaram por baixo das janelas do Albergue, com conversas, gritos e cantorias, que não devem ter deixado dormir ninguém, e claro, nós não somos a excepção e não “pregamos olho”.
Quando saímos, por volta das 8H00 (outra das imposições dos Albergues espanhóis), cruzamo-nos ainda com alguns deles.
Como prometia, trata-se de uma etapa dura, registando-se o local da morte de S. Telmo, em honra do qual decorreram as festividades de ontem em Tuy, que pereceu aquando da peregrinação a Santiago.
Depois de ultrapassarmos um grupo de portugueses oriundos de Peniche, mas que haviam iniciado a peregrinação em Tuy, percorremos uma mancha verde, atravessada pelo Rio Louro, isto até entrarmos no polígono industrial do Porriño, que quase nos fez voar a cerca de 6 kms/hora, e isto por ser domingo e não haver movimento na zona, noutro dia seria terrivelmente pior.
Finalmente chegados a Porriño, fomos presenteados com a volta à Galiza em bicicleta, sendo grande o número de policias na zona.
Aqui existem vários edifícios dignos de destaque, mas claro, optamos por fotografar alguns deles.
Face à hora (11H30), aproveitamos para almoçar uns belos “bocadillos” regados por cerveja.
Rumamos a Mós e aproveitamos para carimbar a credencial junto ao albergue, que estava encerrado. Trata-se de um lugarejo repleto de história, que se encontrava a celebrar o aniversário da derrota dos invasores franceses.
Seguiu-se Cabaleiros, onde, como o nome indica, cruzamos por várias pessoas montadas a cavalo.
A partir desse ponto encontramos uma subida mediana, que nos encaminha por zona florestal ao topo do Monte Cornedo, onde encontramos estes interessantes monumentos e um verdadeiro marco miliário.
Um pouco adiante, já na área de descanso, temos uma vista sobre o nosso destino, que segundo o guia dista cerca de 3 kms, o que não corresponde à realidade, tal como o perfil. Uma descida muito íngreme e prolongada veio-nos relembrar os problemas do nosso amigo Manel Celestino com as descidas…
Chegamos por fim a Redondela, onde voltamos a encontrar os nossos companheiros italianos, com os quais entramos no mais bonito e arranjado Albergue do Caminho, de acordo com os guias e que para já, corresponde à realidade.
Ultreya!
Nota: Significado de Ultreya - É uma palavra de origem latina que aparece pela primeira vez no "Códice Calixtino"(1º guia do Caminho de Santiago). Aimerico Picaud sacerdote que o escreveu, refere que a palavra "Ultreya" era pronunciada pelos peregrinos que chegavam a Catedral de Santiago como a mostrar o seu jubilo de ter chegado ao fim de sua peregrinação. Etnologicamente a palavra Ultreia (ou também eultreja), vem de Ultra-joia, que significa: "mas alla del jubilo" e não significa somente uma forma de verbalizar a alegria de ter chegado a Catedral de Santiago, mas algo como: "para frente" em busca da realização de um objectivo, de uma meta a qual tendo fé iremos alcançar, mesmo diante das dificuldades não deveremos desistir.
Depois de uma noite bem passada em Rubiães, lá partimos nós, uma vez mais os últimos a abandonar o Albergue, que apesar de recente, tem sensivelmente o mesmo número de registos que o de S. Pedro de Rates.
Rumamos a um pequeno café com mercearia e casa de sementes, um verdadeiro tudo em um, na freguesia do Cossourado, onde ganhamos algum tempo de conversa com o simpático proprietário, que nos preparou umas belas sandes de fiambre com pão.
Passado o Coura, subimos ligeiramente para S. Bento da Porta Aberta, sendo visíveis ao longo do caminho diversas marcas de outras rotas, bem como marcos milenários que assinalam a Via Romana do Atlântico.
Após Fontoura, atravessamos uma ponte Romana, que atravessa o Rio Pedreira, onde ultrapassamos a nossa companheira sul africana, que aproveitava os raios de sol, saboreando uma cerveja, segundo ela muito boa, mas que desconfiamos por não estar à temperatura ideal. Ai se estivesse!
Como tínhamos decidido, paramos em Tuido para almoço, no entanto, contrariamente ao planeado, decidimos dar outro tipo de alimento ao corpo, deixando a bela broa e o queijo para mais tarde, que não deixaram saudades perante a bela carne assada e respectivas batatas de acompanhamento, regadas por um vinho verde tinto. Era mesmo o que precisávamos…
Entretanto, mesmo às portas de Valença, fomos surpreendidos com a decoração, algo estranha, de um jardim, cravejado de garrafas e vieras, o símbolo mítico de Santiago, para auguro de boa viagem, que se confirmou.
Já em Valença, trepamos o vale que cerca o forte, completamente repleto de jovens escuteiros em actividade.
Procuramos a ponte internacional, avistando-se a Sé Catedral de Tui, para onde nos dirigimos rumo ao Albergue existente nas imediações, mas ao qual, só com ajuda chegamos face à inexistência de indicações para o mesmo.
Hoje podemos dizer estar com a casa cheia, dado haver inúmeros peregrinos a iniciar o Caminho a partir deste ponto. Decorrem por esta altura as festividades em honra de S. Telmo, mas que não acompanharemos face ao regulamento rígido do Albergue, em termos de horários, isto para não darmos parte de fracos e admitir necessitarmos do descanso para a etapa de amanhã…
Ultreya!
. aventura na linha do sabo...
. Vagabundos na Rota do Mar...
. Vagabundos na GR de Monta...
. santiago de compostela - ...
. Vagabundos na Rota do Xis...
. santiago de compostela - ...
. santiago de compostela - ...
. santiago de compostela - ...
. santiago de compostela - ...
. santiago de compostela - ...
. links